O outono do seu descontentamento

As tradicionais comemorações da Implantação da República, na Praça do Município, tiveram o seu condão de ironia. Dois homens que foram fundamentais na estabilização - e normalização - da solução de governo conhecida como "geringonça" presidiram à primeira cerimónia em que este governo, apesar de ter maioria no Parlamento, não teve maioria nas intervenções. Diante de António Costa, o possível antecessor do primeiro, e de Augusto Santos Silva, o pretenso sucessor do segundo, Carlos Moedas e Marcelo Rebelo de Sousa, discursaram, sem dúvida em concertação, sobre o passado da nação e o estado do país.

A primeira ironia foi essa: tanto Moedas, como comissário europeu, garantindo nos corredores de Bruxelas o bom comportamento do PS, quanto Marcelo, como Presidente logo a seguir, foram indispensáveis para a União Europeia não torcer o nariz à pouca ortodoxa aliança de Costa com o Bloco de Esquerda e o PCP, em 2015. A segunda ironia foi, exatamente sete anos depois, apresentarem-se ambos como portadores de justos reparos à atual governação de Costa, agora absoluto. A terceira foi nem o primeiro-ministro, nem o punhado de ministros presentes, nem o seu líder parlamentar, nem o presidente da Assembleia, contrariamente ao habitual, terem propriamente oportunidade de réplica às achegas. A quarta é a dificuldade que eles, os oradores, terão em manter essa demarcação. Moedas, por disputar um espaço de liderança de oposição, como se confirmou ontem, com o homem que de facto o é: Luís Montenegro. Marcelo, por não calhar nada ao governo ter o político mais popular entre os portugueses a distanciar-se de si.

Discreta e indiretamente, é isso que Marcelo - ao exigir a antecipação do cenário macroeconómico, por exemplo - tem tentado fazer. E é isso que o primeiro-ministro, quando atacado da esquerda à direita, fará por impedir. O país pode chegar mais ou menos bem preparado à crise de 2023, que António Costa fará por lembrar que essa preparação - ou impreparação - foi feita de braço dado com o Presidente da República. O problema, para Marcelo? É que não será mentira.

Entre o discurso de alternativa de Moedas - a "asfixia fiscal", a "cauda da Europa", etc. - e uma manifestação em protesto contra o governo, mesmo ali ao lado, o primeiro-ministro não teve direito a subir ao púlpito, mas fez por ripostar. Furtando a comunicação social ao presidente do PSD, começou a falar enquanto Montenegro ainda respondia às perguntas dos repórteres, roubou o jornal da uma à oposição e empenhou-se na cassete. Pizarro? Mais um caso. Viaturas de luxo na TAP? Não teve tempo para ver. As medidas extraordinárias que Marcelo pedira na véspera? Andamos a implementá-las desde junho. Cenário macroeconómico? É preciso respeitar os calendários. Costa falou e falou e falou. Falou tanto que Marcelo teve tempo de abandonar os Paços do Concelho, chegar a Belém, regressar aos microfones de mais jornalistas e Costa jazia ainda, imperturbável, à beira do seu Nissan Leaf, junto à Câmara de Lisboa. "As eleições costumam ser em outubro", relembrava ele, dando a entender que ainda faltam quatro anos para ir a votos novamente.

Foi essa a quinta - e talvez mais incontornável - ironia do dia de ontem. Cada vez mais, seja por crítica de quem antes o apoiou (é ouvir o Bloco), seja por demarcação de quem antes o defendeu (é escutar Marcelo), seja por evidente fadiga social (a manif de ontem não será certamente a última do ano), António Costa tem quatro anos de fim de ciclo pela frente. É um paradoxo terrível, claro, ter um princípio do fim tão demorado. Mas este é já o outono do seu descontentamento.

Chegado o inverno, virá o nosso.

Colunista

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