O novo ciclo

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Há momentos na política em que o país, cansado de sobressaltos, escolhe a opção que lhe garanta maior estabilidade quase por instinto. A eleição de António José Seguro para Belém é exatamente isso: um voto num Presidente que promete previsibilidade, moderação e um ambiente institucional desanuviado.

Seguro chega a Belém porque foi o único candidato que conseguiu apresentar um perfil e um conjunto de ideias que coincidem com aquilo que a maioria dos portugueses deseja neste momento. Como escreveu este domingo o histórico jornalista Dennis Redmont, antigo correspondente da Associated Press em Portugal nos anos 60, que conhece muito bem o nosso país, os portugueses optaram por um construtor de pontes em vez de alguém que as iria destruir - “Portugal preferred a bridge builder to a bridge burner”. E essa escolha oferece ao Governo algo precioso: três anos de margem para executar o seu programa sem o fantasma permanente de crises políticas. É um luxo raro na política portuguesa contemporânea.

Esse espaço é, aliás, uma oportunidade rara para Luís Montenegro. Depois de meses marcados por hesitações estratégicas, ruído interno e passos em falso, como ficou evidente na desarticulação perante os estragos causados pelo mau tempo, o primeiro-ministro tem agora a possibilidade de corrigir erros recentes e assegurar que o PSD continua a ser o partido charneira do sistema político português. Mas essa possibilidade não é um cheque em branco. Se falhar, corre o risco de as próximas legislativas replicarem o padrão destas presidenciais: um PS “moderado” a disputar o centro e a direita radical a ocupar o resto do espaço. Com o PSD empurrado para um desconfortável terceiro lugar. Um cenário que já se tornou familiar em vários países europeus, onde a direita populista devorou o espaço dos partidos conservadores tradicionais - e onde, depois disso, recuperar relevância se tornou quase impossível.

Convém sublinhar que o PS parte para este novo ciclo com uma vantagem estrutural. No seu campo ideológico, os partidos à sua esquerda perderam a força que tinham até há poucos anos, o que abre espaço para um discurso socialista mais centrista e mais apelativo ao eleitorado flutuante do centro político. O PS pode recentrar-se sem pagar custos internos significativos - algo que o PSD não consegue fazer com a mesma facilidade, porque cada movimento ao centro é imediatamente explorado pelo Chega como sinal de fraqueza ou cedência.

Montenegro enfrenta, portanto, um desafio mais complexo. À sua direita, o Chega não só existe como cresce, e não dá sinais de recuar. O PSD tem de competir com um partido que vive da agitação permanente, enquanto tenta preservar uma imagem de responsabilidade governativa. É uma equação ingrata: se endurece o discurso, arrisca-se a perder o centro; se o suaviza, perde terreno para a direita radical. E, ao contrário do PS, não tem um flanco ideológico pacificado. A sua margem de manobra é estreita e cada erro amplifica-se.

O novo ciclo político pode, portanto, ser decisivo. Seguro garante estabilidade, mas não garante indulgência. O Governo tem três anos para provar que sabe governar e que consegue apresentar resultados tangíveis. Montenegro tem três anos para mostrar que o PSD ainda é capaz de liderar o centro‑direita sem se deixar arrastar para guerras culturais ou tentações populistas. E tanto o PS como o Chega vão usar este tempo para se reorganizarem, reposicionarem e prepararem o próximo confronto eleitoral. A estabilidade que os portugueses escolheram não é um fim em si mesma. É uma janela de oportunidade. A questão é saber quem a vai aproveitar e quem a vai desperdiçar.

Diretor do Diário de Notícias

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