O nó górdio português

Perante as notícias divulgadas pela comunicação, podemos dividir tradicionalmente a opinião dos portugueses em três partes, aqueles que estão de acordo com a visão catastrófica de muitos jornalistas, aqueles que perante a iminente catástrofe pensam numa reação ativa global à crise, e aqueles que pensam numa planificação proativa da saúde centrada no SNS. Será prudente pensar que todos têm razão. E têm razão porque perante a complexidade e a imprevisibilidade da catástrofe que é esta pandemia, as soluções devem ser admitidas tendo em conta a complexidade da resposta planeada com objetivos e estratégia adequados. A solução governativa usada para fazer face às alterações observadas na reorganização da task force do Plano de Vacinação contra a Covid-19 é disso um bom exemplo.

No meu dia-a-dia clínico, sinto que uma grande parte da população portuguesa está com um sentimento de insegurança no futuro, de receio e incerteza desta ameaça real da pandemia. E generalizou-se o medo de ser contagiado, o medo dos amigos, o medo de sair e o medo de morrer. O professor Américo Batista afirma que "o medo é uma função cognitiva normal". Mas uma das manifestações mais prejudiciais do medo, diz o professor Rui Brito, "é a desconfiança que os portugueses têm nos políticos, nos partidos e na justiça". Este investigador, numa publicação recente, afirma que a pandemia veio agravar nos portugueses o medo, levando a estados de ansiedade, de confusão com a informação que recebem e céticos com o futuro próximo.

Embora estejam a ser testemunhados alguns sinais de alívio da pressão sentida no sistema de saúde português, é necessário tomar medidas atinentes ao seu robustecimento e criar ferramentas que possam regular o risco da prestação dos cuidados de saúde.

A gravidade do estado da saúde em Portugal, com os hospitais em falência de espaço e de recursos humanos, a iminente catástrofe na prestação de cuidados, seja pelos hospitais seja pelos ACE, quase sem atividade assistencial excluindo as questões relacionadas com a covid (não exagero), é uma realidade pungente.

O sistema de saúde português arrastado pelo SNS já em rutura e em rampa deslizante para o caos, não deixa alternativas aos portugueses, repito a todos os portugueses, na procura de cuidados de saúde. Diria, com conhecimento real no "terreno", que nesta época que atravessamos não se pode ficar doente nem ter nenhum acidente, porque não só não temos onde recorrer, como também não há profissionais para o fazer.

Para ilustrar esta situação, no sábado passado às 21 horas uma cidadã lisboeta andava à procura de um quarto na sua cidade para internar o pai com AVC. Como no hospital público a que recorreu estava há seis horas à espera, foi bater à porta de vários hospitais privados e sociais, que com camas vazias ou não recusaram o doente. Todos não, felizmente havia um hospital que tinha uma onde ficou.

Toda esta realidade, meio escondida pelo governo, meio escrita e meio falada pela comunicação social, sem um diagnóstico real, sem um estudo da arte da situação de saúde em Portugal, transformou-se num nó górdio que necessita de uma estratégia para o desatar.

O nó górdio é uma lenda que remonta ao século VIII a.C. que tem como protagonistas o rei da Frígia Midas que deixa o reino sem descendentes e Alexandre, o Grande, que consegue desatar o nó do carro de bois. É usada como metáfora de um problema insolúvel (desatar um nó impossível) resolvido facilmente por ardil astuto ou por "pensar fora da caixa". Alexandre desatou o nó com um golpe de espada, método usado na época para ganhar o poder. Hoje para desatar este complexo nó devemos unir o conhecimento de todos e usar a tecnologia e sistemas de informação adequados.

Encontrar uma solução será a obrigação de todos os portugueses e principalmente dos seus líderes, tendo em conta a resiliência do sistema, a compassividade dos profissionais, a estratégia dos militares e de todos os stakeholders (social e privado), a paciência e a resistência dos cidadãos e a equanimidade dos líderes políticos. A solução para este problema global de saúde requer uma operação nacional onde todos devem estar envolvidos: os cidadãos civis e militares, as instituições e os políticos.

Médico e investigador do CINTESIS

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