O mundo mudou. Está a chegar a descentralização do local e horário de trabalho

Começo por salientar que todo este texto de opinião se baseia num exercício de generalização, que é sempre algo que prefiro evitar fazer, uma vez que existirão sempre outliers que não se revêm no mesmo. Contudo, sou um firme convicto que o debate e troca de opiniões é sempre algo salutar, pelo que convido quem o leia a deixar o seu ponto de vista.

Muito se tem falado do futuro do workplace, sobretudo no período pós início de pandemia, com a massificação do trabalho remoto. Sejamos honestos connosco próprios, é impossível regressarmos ao ponto em que estávamos e, a meu ver, só temos a ganhar com isso. As pessoas perceberam que conseguem ter um equilíbrio muito maior entre a sua vida pessoal e profissional com esta liberdade a nível de local e horário. Work-life Balance e Work-Life integration são conceitos que ganharam uma força tremenda nos últimos 2 anos.

Claro que exige uma maior capacidade de auto-gestão, para não acabarmos por trabalhar nem a mais, nem a menos do que seria suposto para a nossa função e objetivos. Claro também que nem todas as funções e atividades permitem esta liberdade, mas foquemo-nos exclusivamente nos cenários em que é efetivamente possível, caso os diversos intervenientes assim estejam dispostos.

Muito se tem debatido sobre semanas de trabalho de 4 dias, com mais ou menos horas por dia. A meu ver, esta discussão é apenas um adiar da discussão que efetivamente deveria existir, i.e., quais as formas, indicadores e mecanismos justos que temos de medir a produtividade das pessoas. Em paralelo, discutir como otimizar os processos nas empresas e nos organismos públicos, para que as pessoas possam desempenhar as suas funções de acordo com esses mesmo indicadores e mecanismos. A partir do momento em que isto seja definido e implementado, deveria passar a ser completamente irrelevante se a pessoa trabalha 4, 6 ou 8 horas por dia, se trabalha 3 ou 5 dias por semana, desde que consiga desempenhar os objetivos adequados para a sua função e nível de senioridade da mesma.

Pensando um pouco no futuro, acredito que as novas gerações - tão habituadas ao consumo rápido e cómodo potenciado pela tecnologia - não queiram passar 60-70 % do seu tempo útil disponível num escritório. Estamos a olhar para gerações que não estão dispostas a viver para o trabalho e que vão procurar integrar o trabalho na sua vida pessoal. O jogo mudou, vamos ter que passar a vê-lo do outro lado. Cada vez mais existirão nómadas digitais; as próprias leis dos países irão ao encontro desta liberalização do trabalho pois, mais uma vez, só temos a ganhar com isso.

"E a cultura das empresas?", poderão estar alguns a questionar-se. Esse é o grande busílis da descentralização do workplace: como implementar uma cultura empresarial se as pessoas não estão presentes fisicamente no escritório? É possível? Sim, é. Mas, para tal, os decisores têm que estar dispostos a fazer mudanças nos seus processos, a adotar técnicas e iniciativas diferentes, a estar dispostos a fazer concessões em certos pontos e também a sair daquilo que se calhar é confortável pois foi feito durante muito tempo e resultava. São grandes desafios, mas o que não falta são profissionais altamente qualificados para os agarrar e resolver. A cultura empresarial como a conhecemos tem os dias contados, quanto mais rápido percebermos isso, mais rápido conseguiremos agir e criar novas realidades.

O mundo está a mudar, e com isso mudam-se as mentalidades. Deixámos de competir apenas com as pessoas e empresas locais ou nacionais e passámos a competir com o mundo inteiro. Esta é uma realidade cada vez mais presente. É bastante natural ter equipas multiculturais hoje em dia, bem como ver pessoas de diversas nacionalidades e etnias a concorrer para a mesma vaga no mesmo país.

O mundo e o que vemos como o Trabalho evoluem, porque não evoluir com eles?

Diretor Executivo, Decode

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG