O mundo está mais feliz quando todos estamos ligeiramente infelizes

Há semanas que o mundo olha com aflição para a fronteira entre a Rússia e a Ucrânia, sem saber se a diplomacia será capaz de evitar uma guerra. Para que não fiquem quaisquer dúvidas, a Ucrânia é um Estado independente que tem todo o direito a tomar as decisões que entenda sem ser invadida e, ao mesmo tempo, tanto os países da NATO como a Rússia necessitam de estabelecer os mecanismos de defesa que lhes permitam sentirem-se seguros ao longo das suas fronteiras comuns. O mundo visto de Bruxelas, de Kiev e de Moscovo tem cores e formas diferentes.

Há 30 anos, quando o Muro de Berlim caiu e a União Soviética desapareceu, teria sido útil termos estabelecido mecanismos de consulta e informação entre os países da NATO e Moscovo mais eficazes e permanentes do que os que criámos. E hoje será importante não cairmos no mesmo erro no nosso relacionamento presente e futuro com a China.

De forma semelhante, e na sequência dos problemas de distribuição de bens e serviços essenciais produzidos um pouco por todo lado e gravemente afetada pela pandemia, a União Europeia decidiu reforçar a sua capacidade de produção própria. Ao mesmo tempo, e para fazer face às alterações climáticas, Bruxelas está empenhada numa mudança de paradigma profunda, substituindo os combustíveis fósseis por energias renováveis. Mas será útil pensarmos que as economias e o bem-estar social de muitos países do sudeste asiático e da própria China dependem das linhas de produção e distribuição longas que serão afetadas pela reindustrialização da Europa e que muitos países do golfo Pérsico, de África e da América Latina dependem do mercado dos combustíveis fósseis para sobreviver. Uma vez mais, os legítimos interesses da Europa e os igualmente legítimos interesses de países na Ásia, em África e nas Américas não estão alinhados.

Ninguém discute o direito da UE em reforçar a sua capacidade industrial e a maior parte de nós agradece a liderança europeia no combate às alterações climáticas, mas poucos discordarão que a União Europeia deverá trabalhar com os Estados afetados pelas suas decisões para evitar a potencial destruição das respetivas economias, com as consequências que apenas podemos imaginar.

Para prevenir que estes e outros choques de interesses legítimos se transformem em crises políticas, de segurança e humanitárias, será útil antecipar as consequências das decisões que tomamos e procurar encontrar as soluções que sejam aceitáveis para todos. E para que as soluções possam ser mais eficazes e para que os problemas possam ser menos graves temos de ser capazes de olhar para os problemas através dos olhos da outra parte, perceber as suas preocupações e estarmos prontos para ceder no que podemos ceder para salvar o que temos de salvar.

O mundo é um lugar complexo, cheio de zonas cinzentas, onde quase nunca é possível atribuir culpas absolutas e, quando o fazemos, haverá certamente mortos. Todas as histórias têm dois ou mais lados, todos os países têm interesses estratégicos que pretendem defender, todas as crises podem ser geridas se forem trabalhadas com tempo e bom senso. A diplomacia é a arte de evitar o pior aceitando o menos mau e quando isso acontece o mundo fica mais contente e não será necessário enterrar ninguém.

Investigador associado do CIEP/Universidade Católica Portuguesa
bicruz.dn@gmail.com

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