O Mundo e a Igreja. Que Futuro?

1. Julgo que nunca a Humanidade enfrentou tantas e tão graves ameaças como hoje. Só exemplos: as alterações climáticas; guerras dispersas; a guerra nuclear; as NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas, neurociências) na sua ambiguidade, pois há novas possibilidades, mas também perigos: frente às possibilidades do trans-humanismo e do pós-humanismo, é preciso reflectir sobre o que verdadeiramente queremos; as batalhas digitais; o controlo digital pelos Estados; bebés transgénicos; experiências com híbridos; migrações incontroláveis; as lutas tecno-económico-políticas pela supremacia global; as drogas; a injustiça estrutural global; o atropelo dos direitos humanos...

A questão é que estes problemas tão complexos são globais e a política é nacional, quando muito regional, com Governos que governam para o curto prazo, para ganhar eleições, mas estes problemas são globais e exigem soluções a longo prazo. Não precisamos, portanto, de erguer uma Governança Global? Não digo, evidentemente, Governo mundial, mas Governança Global, já que os problemas enunciados e outros só com decisões ético-jurídico-políticas globais poderão encontrar solução.

Neste contexto, é preciso contar com o apoio da Igreja. A Igreja Católica é a única instituição verdadeiramente global: presente em todo o mundo e em todos os estratos sociais. É, pois, fundamental poder contar com o seu contributo decisivo enquanto voz político-moral global. Evidentemente, por si mesma e também em ligação com as outras Igrejas cristãs e em diálogo com as grandes religiões mundiais. A pergunta é: que revolução é preciso operar na Igreja para ela poder desempenhar esta missão imprescindível?

É neste horizonte que se situa o meu mais recente livro, 479 páginas, com o título O Mundo e a Igreja. Que Futuro?. Acaba de ser distribuído pelas livrarias.

2. Tem quatro partes.
2. 1. Depois da Introdução a elencar as crises actuais - crise sanitária, crise ambiental, crise económica e social, crise migratória, crise política, crise das relações humanas, crise educativa, crise religiosa -, a primeira parte intitula-se: "Tempo para pensar". Invadidos pelo achismo, a sida espiritual, a ganância do ter e do poder pelo poder, precisamos de parar para pensar. Isso: pensar, de pensare, pesar razões, ir ao mais fundo, para encontrar a sabedoria de viver e ser feliz, reflectir sobre as feridas e ameaças à Humanidade, sobre as finalidades humanas, as razões da esperança...

2. 2. Segunda parte: "O sofrimento, a morte e Deus". Parte-se de um conceito holístico de saúde e reflecte-se sobre os dados científicos que mostram como a prática religiosa influencia positivamente a saúde. Perante a morte, ergue-se a interrogação essencial, que está na base das artes, das filosofias, das religiões: o que é o Homem? Frente à morte, impõe-se, clara, a distinção entre bem e mal, entre o que verdadeiramente vale e tudo o resto. Ah, e a pergunta de Tolstoi em A Morte de Ivan Ilitch: "Onde estarei quando já não existir?" Qual é o Sentido último da existência? Há razões para acreditar que na morte não encontraremos o nada mas a plenitude da vida em Deus?

2. 3. Terceira parte: "Francisco, um cristão reformador". Como escreveu P. Seewald, seu biógrafo, Joseph Ratzinger, "o primeiro Papa do terceiro milénio" com o nome de Bento XVI, era, "do ponto de vista formal, o Papa mais poderoso de todos os tempos. Nunca a Igreja Católica estivera tão espalhada pelo mundo". Mas os problemas eram gigantescos e os lobos não largavam a vinha do Senhor. No dia 11 de Fevereiro de 2013, Bento XVI declarou a renúncia ao pontificado. O sucessor, Francisco, foi eleito no dia 13 de Março seguinte, e rapidamente conquistou o mundo. "Franciscano" e jesuíta, é um líder político-moral global, hoje talvez o mais amado e influente. Simples, ele é um cristão. O que o move é o Evangelho de Jesus, a favor da dignidade de todos, da fraternidade e da paz, no quadro de uma "ecologia integral". Enfrenta sem hesitar os escândalos na Igreja, da tragédia da pedofilia do clero à imensa corrupção no Vaticano. Quer uma Igreja à maneira de Jesus, que a todos acolhe, aberta ao diálogo ecuménico e inter-religioso. O protocolo manda dirigir-se-lhe como "Sua Santidade", mas, na verdade, ele é "Sua Fraternidade".

2. 4. A quarta parte quer enfrentar precisamente a urgência do caminho de uma revolução na Igreja: "Uma Igreja outra". Urge a abertura a "uma Igreja em saída", desconfinada de dogmas estéreis, clericalismos, tradições fossilizadas, ritualismos mortos, que não transmitem vida. Para isso, só há um caminho: que cada cristão volte a fazer uma experiência pessoal de encontro com a pessoa de Jesus Cristo e o seu Evangelho, notícia boa e felicitante, e não Disangelho, notícia má e de desgraça, como denunciou Nietzsche. Claro que alguma organização é necessária, mas não a que está em vigor, que leva à criação de duas classes na Igreja. Qual é a revolução que falta? A partir do facto de que Jesus não ordenou sacerdotes, que consequências tirar?

3. Estou grato ao arquitecto E. Souto de Moura pela capa, que apresenta de modo tão apelativo o livro à visibilidade pública. Os primeiros leitores foram Maria de Belém Roseira e Paulo Rangel, e devo-lhes o privilégio de uma leitura atenta e generosa, seguida de um Prefácio e um Posfácio, respectivamente, iluminantes, tão enriquecedores, com ideias fortes, originais e até inesperadas.

Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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