O macaquinho de Atenas, entre outros monos

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Às vezes, até o macaco faz História. Mas, antes de falarmos do macaco histórico, surgiu esta semana outro episódio animalesco, merecendo honras de grande destaque no sempre informado Politico: no final de 2016, Cecilia Bonefeld-Dahl, a mais poderosa lobista de Bruxelas para os assuntos do digital, consultora da NATO e da Comissão Europeia, vendeu um pónei a uma senhora dinamarquesa, para que a filha desta pudesse entrar no restrito e muito elitista mundo das competições de póneis que, caso não saibam, ocorrem em grande estilo por essa Europa fora. Acontece que, em 2018, o dito pónei, de seu nome Spartacus, foi barrado de uma competição na Alemanha pelo singelo e trágico motivo de não ser pónei, mas cavalo. São draconianas as regras internacionais na matéria equina, alvo de regulação milimétrica: um pónei, para ser dado oficialmente por pónei, tem de ter por altura entre 141cm e 148cm e tudo o que seja acima disso já é considerado cavalo. Não é questão de somenos, pois um pónei, só por ser pónei, vale bem mais do que um cavalo, mesmo de raça: Spartacus custou cerca de 76 mil euros, mas se fosse considerado cavalo valeria uns 11 mil, não mais. Aqui o tamanho conta, conta muitíssimo, faz a diferença de muito dinheiro e, apesar de ter 148 cm de estatura averbados no seu passaporte de pónei, Spartacus é um cavalo, proclamou-o o mais alto tribunal da Dinamarca, condenando a lobista de Bruxelas por venda defeituosa, ou no mínimo enganosa, e obrigando-a a pagar à compradora danesa qualquer coisa como 126 mil euros por perdas e danos (no fundo, por ter um cavalo em casa, julgando que era dona de um pónei). O caso está longe de se encontrar encerrado, na Justiça e fora dela, e certamente iremos ter novas equestres num futuro próximo.

Quanto à história do macaco, li-a em Midnight at the Pera Palace, de Charles King (Norton Publishers, 2014), uma apaixonante narrativa do nascimento da Istambul moderna, que comprei naquela que é uma das melhores livrarias de Lisboa, talvez a melhor: Palavra de Viajante, ao nº 34 da Rua de São Bento (ide, ide lá, vereis maravilhas!) E o caso do macaco é este: aos primeiros dias de Outubro do ano da graça de 1920, andava o rei Alexandre da Grécia por terras do seu palácio, nos arredores de Atenas, a passear tranquilamente o seu canito, um Lobo-da-Alsácia chamado Fritz, quando lhe surgiu ao caminho um macaco-berbere, desses que vemos no rochedo de Gibraltar, o qual pertencia a um dos jardineiros do palácio, mais precisamente ao intendente das videiras. Acontece que o Fritz se encanzinou todo com o macaco-berbere, ladrou-lhe muito, quis ferrar-lhe o dente, mas dos arbustos surgiu outro Macaca sylvanus (nome técnico), que, em socorro do irmão mono, abocanhou não o cão, mas o rei. Ao princípio, este não ligou à ferida, mas esta infectou -- e fez septicémia. Os médicos ainda ponderaram amputar-lhe a perna, mas nenhum quis assumir a responsabilidade por tão dramático gesto na augusta pessoa do Rei dos Helenos, e, por isso, ao fim de poucas semanas, mas de muita agonia, Alexandre da Grécia, da Casa Eslésvico-Holsácia-Sonderburgo-Glucksburgo, estava completamente morto.

"Não é exagero dizer-se que um quarto de milhão de pessoas morreu de uma mordidela de macaco", dirá, pouco depois, Winston Churchill. E, na verdade, a morte súbita do soberano grego causou uma convulsão tremenda, com o Parlamento a exigir que Constantino I e o príncipe Jorge fossem excluídos da linha sucessória, com eleições realizadas em 1920, em clima de quase guerra civil entre os partidários do primeiro-ministro Elefthérios Venizelos, defensores da República, e os monárquicos que apoiavam o regresso de Constantino ao poder, o que veio a verificar-se, levando à queda e ao exílio de Venizelos. Realizou-se depois um referendo, que sufragou esmagadoramente o retorno de Constantino ao trono e, no meio da barafunda, os Aliados dividiram-se quanto ao apoio dado a Atenas na sua guerra com a Turquia: se a Grã-Bretanha permaneceu fiel a Constantino, firmando os Acordos de Sèvres, a França e a Itália, ainda escaldadas pelo pró-germanismo do rei grego na Primeira Guerra Mundial, furtaram-se a ajudá-lo. Os nacionalistas turcos de Mustafa Kemal (mais tarde, Atatürk) aproveitaram o momentum e derrotaram os gregos na Batalha de Inönü, a sul do Mar de Mármara, em Janeiro de 1921, e, depois, no mesmo local, em Abril desse ano; mais tarde, averbaram outro importante triunfo junto ao Rio Sakarya, perto de Ancara. No Verão, os italianos fizeram um acordo de paz separado com os nacionalistas turcos e retiraram as suas tropas da Anatólia e, em Outubro, os franceses seguiram-lhe os passos. Cerca de um ano depois, no Verão de 1922, deu-se o ataque final a Esmirna, assolada por um gigantesco incêndio pouco depois de as tropas turcas a ter tomado aos gregos, naquilo que foi, muito provavelmente, um gesto deliberado dos soldados de Mustafa Kemal para forçar o desterro do que restava das comunidades arménias cristãs e gregas da cidade (a questão, todavia, continua a ser alvo de mil querelas e de acesos debates historiográficos). Enquanto as chamas devoravam as casas dos helenos e dos arménios, as tropas turcas iam perpetrando atrocidades horríveis, chacinando milhares de pessoas, levando ao exílio de muitas mais: as estimativas de mortos variam incrivelmente entre 10 e 125 mil, houve deportações em massa para a Anatólia, milhares de violações de mulheres. Com isso, punha-se termo a séculos de presença cristã na região e o subsequente Tratado de Lausanne implicou movimentações populacionais gigantescas, com a transferência de um milhão e 500 mil gregos ortodoxos para a Grécia e a saída de 500 mil turcos e muçulmanos gregos para a Turquia, do mesmo passo que amnistiou os crimes de guerra otomanos (genocídios arménios, assírios e gregos) e abriu portas ao reconhecimento internacional da nova República da Turquia como legítima sucessora do império.

Talvez seja exagero dizer-se que tudo isto se deveu à mordidela de um macaquinho em Atenas, mas não há dúvida de que a morte inesperada de Alexandre da Grécia foi determinante para o desfecho da guerra com a Turquia e, logo, para a ascensão de Kemal ao poder e para a fundação da nova república. Sem isso, a actual Turquia não existiria, pelo menos com a feição como hoje a conhecemos. Ou seja, milhões e milhões de seres humanos foram, e ainda são, afectados nas suas vidas por um desastrado recontro entre um pastor alemão e um macaco-berbere, que não teria efeitos de maior se o danado do mono não se tivesse lembrado de abocanhar a perna do rei da Grécia.

De facto, a personagem central em todo este episódio é o rei Alexandre, não os macacos ou o cão alemão, o que nos leva a pensar, por um lado, na importância do acaso na História e na sua permanente imprevisibilidade - na verdade, foi um acontecimento fortuito, mais do que imprevisto, materializado sob a forma de uma mordedura de um macaco, que selou o destino da Grécia, da Turquia e de milhões de seres humanos; por outro lado, o caso do macaco-berbere mostra-nos a importância decisiva das pessoas concretas, de carne e osso, no devir do mundo. Durante anos, no estudo e no ensino da História, e em larga medida por influxo da escola francesa dos Annales, desconsiderámos a relevância dos líderes e dos governantes, fossem eles os reis das monarquias ou os presidentes das jovens repúblicas. Em lugar de dinastias e casamentos régios, preferimos as grandes tendências e os movimentos largos, aquilo a que se chamou a longue durée, as estruturas económicas e sociais, as flutuações dos preços, o evoluir das mentalidades colectivas. Com isso, ganhámos uma compreensão mais ampla e certeira da realidade, passada e presente, mas corremos o risco de resvalar no extremo oposto, isto é, de desvalorizarmos em excesso o peso do elemento humano, a influência que as pessoas têm e sempre tiveram na História deste mundo, tema de Leadership, o último livro do agora tão amado Kissinger.

De facto, por toda a parte e a todo instante temos provas de que a personalidade de cada qual é decisiva, essencial, não sendo indiferente que os EUA sejam governados por Joe Biden ou por Donald Trump, mesmo que as «estruturas» da economia e da sociedade americanas se mantenham as mesmas com um e com outro, já que ambos são partidários da iniciativa privada e do capitalismo, da influência da América em todo o planeta ou do investimento na Defesa e nas Forças Armadas. De igual modo, para o que agora vai acontecendo na Ucrânia também não é alheia a personalidade sui generis do líder russo, sendo curioso notar que os comentadores mais favoráveis às teses do Kremlin raramente se pronunciam sobre a pessoa de Vladimir Putin, coisa que não convém, preferindo falar de grandezas geopolíticas como "esferas de influência" ou "zonas-tampão", entre outras abstracções teóricas e eufemísticas. Há dias, no NY Times, Thomas Friedman lembrava o óbvio, que deve ser recordado aos defensores da "paz": a guerra da Ucrânia nunca acabará enquanto Putin estiver no poder.

Até em casos bem mais circunscritos vemos a marca das pessoas concretas, mesmo quando anónimas: de Norte a Sul, de Leste a Oeste, a Europa inteira está conspurcada por um energúmeno de nome "Geco", que durante anos a fio andou a vandalizar património com os seus autocolantes e os seus rabiscos. Milão, Atenas, Amesterdão, Génova e também Lisboa foram apenas algumas das muitas cidades-vítimas onde Geco deixou a sua triste marca. Foi capturado em 2020, mas já antes confessara que tinha por único objectivo tornar conhecido o seu nome, nada mais. Conseguiu-o - paredes, viadutos, sinais de trânsito, em todo lado vimos inscrito "Geco", um palerma que causou danos patrimoniais de valor incalculável. Dirão alguns que, se não fosse ele, outros teriam feito igual ou parecido, pois, infelizmente, o italiano não é caso único de vandalismo grafiteiro, uma das maiores chagas urbanas do nosso tempo: entre 2016 e 2019, a Câmara Municipal de Lisboa gastou quase seis milhões de euros a limpar uma ínfima parte desta barbárie, mas as ruas continuam imundas, sarapintadas de alto abaixo. A CP e a Carris gastam outras tantas fortunas na remoção dos grafittis e, aqui há uns anos, na Feira de Arte Contemporânea de Madrid, a Renfe fez uma exposição provocatória, exibindo a «obra mais cara» de todo o certame: a porta grafitada de um comboio com uma legenda onde se explicava que aquela empresa gastava anualmente 15 milhões de euros, pagos pelos contribuintes, na remoção de grafittis. Entre nós, persiste a complacência das autoridades, policiais, políticas e judiciais, perante este desprezível fenómeno, que alguns teimam em confundir com arte e, pior ainda, com liberdade de expressão. Sob o pseudónimo "Geco", o italiano Lorenzo Perris (parece que é o nome do bicho) fez um mal tremendo, incalculável, pelo qual nunca pagou, nem pagará. Deixou-nos, em todo o caso, uma concludente e grosseira prova de que, de facto, as pessoas contam - e contam muito - para o que vai sucedendo ao mundo.

CitaçãocitacaoEm lugar de dinastias e casamentos régios, preferimos as grandes tendências e os movimentos largos, aquilo a que se chamou a longue durée, as estruturas económicas e sociais, as flutuações dos preços, o evoluir das mentalidades colectivas

Ainda há pouco, tivemos mais um exemplo da importância fulcral das pessoas reais e concretas para a definição dos destinos colectivos, sobretudo quando essas pessoas, para nossa sorte ou azar, estão colocadas em posições de poder e mando. Na verdade, para a recente trapalhada sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa não foi indiferente que o ministro das Infraestruturas e o seu secretário de Estado sejam uns absolutos ignaros em matéria de Obras Públicas e não tenham a mínima preparação sobre os assuntos que tutelam. O resultado está à vista e pode ser lido nas páginas do Diário da República sob a forma de Despacho nº 7980-C/2022, cujo título comprido - "Definição de procedimentos relativos ao desenvolvimento da avaliação ambiental estratégica do Plano de Ampliação da Capacidade Aeroportuária da Região de Lisboa" - mal disfarça, entre outros pecados, o facto de se encontrar redigido num português canhestro, abaixo de péssimo, em que se começa por dizer que existiam três opções, cujo estudo fora acordado com o PSD, mas que acaba por se orientar por uma quarta, a qual, em bom rigor, absorve todas as outras: obras na Portela (mas apenas "para melhoria da operacionalidade da infraestrutura"), Montijo no curto prazo, Alcochete mais para diante. Impactos financeiros, os custos de tanta obra? Nem uma conta, nem um só número existe naquele desastrado despacho, o qual dá por adquirida uma solução desta magnitude antes de se fazerem as avaliações ambientais ou económicas que a suportem. Lindo, não?

A forma impetuosa, que agora se diz "assertiva", com que o ministro pretendeu impingir-nos o Ovo de Colombo que julgou ter alcançado, num assomo de génio que ninguém tivera ao longo de décadas de estudos sobre o tema, faz-nos crer que pretendeu figurar-se como um novo Duarte Pacheco, esquecendo-se nesse transe que, à uma, não é Duarte Pacheco quem quer e, à outra, que Duarte Pacheco, dois anos depois de se formar, já era professor catedrático do IST e, aos 27 anos, foi escolhido por unanimidade - repete-se: por unanimidade - para dirigir aquele Instituto, num reconhecimento eloquente das suas capacidades de liderança e, sobretudo, das suas qualidades técnicas e científicas, graças às quais foi, ele próprio, autor de diversos e importantes projectos. É certo que do currículo de Pedro Nuno de Oliveira Santos constam também, sem dúvida, cargos relevantíssimos, pois presidiu à associação de estudantes da Escola Secundária Dr. Serafim Leite, São João da Madeira, foi membro da direcção associativa do ISEG, onde se formou, parece que em Economia, foi adjunto da administração da empresa do pai, a Tecmacal, secretário-geral da Juventude Socialista, deputado da nação nas épocas 2004-2009 e 2011-2015 e secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, informando ainda a Wikipédia que tem 1,88m de altura (ou seja, não é pónei) e é namorado ou casado com uma moça que chefiava o gabinete de um seu colega de governo. Mais esclarece a Wikipédia, em nota de rodapé, que o actual titular das Infraestruturas, ardente partidário da ferrovia, comprou em 2017 um Porsche 997 S Cabrio, mas pô-lo à venda dois meses depois - por 68 900 euros.

Não se vislumbrando no CV do ministro Pedro Nuno Santos um qualquer trabalho, um breve estudo, sequer uma linha que o habilitem a abordar matérias tão técnicas e tão exigentes com as das Obras Públicas e Infraestruturas, mandaria a prudência que se fizesse acompanhar de um secretário de Estado que lhe amparasse as falhas, que são muitas e graves, desde logo no que ao bom senso respeita. Simplesmente, a nota biográfica do secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Santos Mendes, o tal que exarou o despacho, mostra que ele mais não é do que um clone do patrão que serve, uma fotocópia esborratada ou duplicata low cost do senhor ministro: política e mais política, jotinhas, e associações estudantis, passagens por gabinetes, nada mais do que isso. Nas fotografias oficiais, vemo-lo compenetrado, senhor de si e do seu génio, com pose de pensador e estadista e a gravitas própria dos jovens ainda inseguros no mundo dos crescidos. O look, esse, oscila entre a semiótica e a Multiópticas e, não soubéssemos nós que o rapaz é governo, poderíamos tomá-lo por um manequim La Redoute. Quanto ao currículo, um condensado de mediocridade a que não faltam todos, mas todos, os matadores do boyzismo: licenciatura e mestrado em sociologia, pelo ISCTE, assessor da ministra da Educação Maria de Lourdes Rodrigues, adjunto de dois secretários de Estado, assessor do grupo parlamentar do PS, chefe de gabinete de ministro e, desde há dois anos, governante, primeiro nas Comunicações, agora nas Infraestruturas, onde já fez mossa da grossa. Uns escassos três meses depois de chegar ao cargo, um sociólogo de 30 aninhos, sem experiência nem competência alguma, decidiu despachar de súbito uma questão que tem décadas de estudos e controvérsia - é óbvio que o resultado só podia ser este, doloroso e asnático. Também é óbvio que uma decisão como a do novo aeroporto de Lisboa não poderia ficar confiada a esta dupla de cómicos, mas assim não o pensaram eles, que se precipitaram num despacho sem qualquer fundamentação técnica (sim, que estudos e pareceres apoiavam a opção feita? Ou será que saiu tudo daquelas cabeças?), tomado à revelia não apenas do Presidente da República e do líder da oposição, mas do próprio primeiro-ministro e, note-se, do Conselho de Ministros (ou seja, todos os seus colegas foram enganados, ainda que nenhum deles tenha tido, por ora, a coragem e a dignidade de vir questionar tamanha quebra de solidariedade governamental). Todo o episódio foi tão grotesco e tão lamentável que os comentadores e os cidadãos procuraram detectar nele uma qualquer motivação oculta, um módico de racionalidade, dizendo que fora tudo uma astuciosa jogada política do ministro para sair do governo e preparar a sucessão do PM. Infelizmente, a realidade é mais comezinha e prosaica, menos palaciana e sagaz, impondo-se reconhecer que, em lugar de um ardil maquiavélico, tudo não passou de uma monumental e infantil trapalhada, como ainda há dias Francisco Mendes da Silva notou num certeiro artigo no Público. No mesmo jornal, Manuel Carvalho observou, e bem, que o governo de Portugal foi transformado numa associação de estudantes: mas que outra coisa haveria a esperar de quem na vida só fez isso? Fala-se muito do "esquerdismo" e do "trotskismo" do ministro Nuno Santos, mas, em rigor, que teses ou ideias tem defendido, qual o seu pensamento, a sua filosofia política, os seus autores de referência? Que propostas fez para Portugal e seu futuro? Nada de nada, um zero absoluto.

O problema, reconheça-se, não é exclusivo dos governos do PS, pois em todos os partidos encontramos artistas deste calibre. À esquerda e à direita, eles são o produto de um dos piores cancros do nosso regime democrático: as juventudes partidárias, que têm um peso desproporcionado, quase hegemónico, na vida interna dos partidos e na escolha dos seus líderes. O perfil biográfico dos jotinhas, típico e infalível, é um cursus honorum de vacuidade: durante o curso, não estudam nem aprendem nada, passam os dias a colar cartazes ou em conspiratas de café, as noites dedicadas a reuniões palavrosas, fumarentas e intermináveis, numa aprendizagem precoce do que há de pior na política - as chapeladas nas urnas, o cozinhado das "listas", as rasteiras e as punhaladas, os truques de bastidores, os soundbites ruidosos sobre temas "fracturantes". Depois, quando não enveredam pela fraude académica pura, com plágios e falsos graus, disfarçam as mazelas do CV com umas aldrabices cosmopolitas, grafadas em língua inglesa, umas formações ultra-rápidas, umas pós-graduações de opereta, e daí vão para os "gabinetes", ministeriais, parlamentares, autárquicos. Com manha e intriga, ascenderão a deputados, com sorte a ministros, e depois irão crescendo, na política e nos negócios, à medida que controlam as "estruturas" e as "bases" dos seus partidos. Uma vez reformados, tornam-se "comentadores", sagazes opinion-makers. Nunca leram nada de nada, nunca estudaram nada, não tem hábitos de trabalho ou profissão que se veja, a mínima especialização, um vislumbre de cultura - e é a isto, a esta canalha, que tem sido confiado o governo de Portugal desde há vários anos. A história do macaco de Atenas mostra que as pessoas contam para a História e que nunca foi indiferente a matéria humana com que se faz a política. Era importante e urgente que os partidos reflectissem sobre as suas jotinhas, coisa que, obviamente, nunca irão fazer. Depois, admirem-se.

Historiador.

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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