O Holodomor não se discute?

Vejo nas redes sociais que há, outra vez, enésima vez, uma polémica sobre o Holodomor, ao que parece por causa de um qualquer comentário de Francisco Louçã, que não vi.

A palavra Holodomor serve para acusar o regime de Estaline de ter programado com uma fome a morte de milhões de ucranianos nos anos de 1932 e 1933.

O nacionalismo ucraniano (que viria a ser aliado do nazismo) usou essa palavra (paralela à palavra Holocausto, que designa o genocídio ordenado por Hitler) e proclamou o assassinato em massa de 12 milhões de pessoas.

Em 2003 os representantes na ONU de vários países do leste europeu, saídos da queda da URSS, incluindo a Rússia, alguns países árabes, Timor-Leste, Canadá e EUA, enviaram ao secretário-geral uma declaração sobre o Holodomor em que estimam, em baixa, o número de vítimas num valor de 7 a 10 milhões de ucranianos.

O historiador norte-americano Timothy Snyder, que defende a existência desse crime de genocídio no livro Terras de Sangue: a Europa entre Hitler e Estaline, de 2010, reduz no entanto esse número para 3,3 milhões. Ele escreveu mesmo que "o presidente Viktor Yushchenko presta um grave prejuízo ao seu país ao reivindicar dez milhões de mortes, exagerando assim o número de ucranianos mortos por um fator de três; mas é verdade que a fome na Ucrânia de 1932-1933 foi o resultado de decisões políticas intencionais e matou cerca de três milhões de pessoas".

Portanto, sobre o Holodomor não há certeza sobre a dimensão do crime.

A questão de neste caso haver ou não haver genocídio está dependente do resultado da investigação sobre se a fome dos ucranianos foi intencional e se houve uma decisão política com a finalidade explícita de os eliminar.

O historiador ocidental mais conhecido nesta matéria foi Robert Conquest, que dedicou grande parte da vida ao estudo da União Soviética e foi um "herói" para os académicos anticomunistas - o governo norte-americano encheu-o de condecorações.

Ele fez uma revisão aos seus estudos depois de os arquivos soviéticos terem ficado disponíveis. Concluiu o seguinte: "Estaline infligiu propositadamente a fome de 1933? Não. O que eu argumento é que, com a iminência da fome, ele poderia tê-la evitado, mas colocou o "interesse soviético" à frente de alimentar primeiro os famintos, portanto, incitando-a conscientemente."

De resto, nessas fomes, terão morrido perto de um milhão de pessoas na própria Rússia.

Outro historiador não marxista, (como todos os que, propositadamente, aqui cito) Arch Getty, vai mesmo mais longe e é explícito a negar o genocídio. Escreve ele que "o peso esmagador da opinião entre os estudiosos que trabalham nos novos arquivos (...) é que a terrível fome da década de 1930 foi o resultado da rigidez estalinista e não de algum plano genocida".

Portanto, sobre o Holodomor há mesmo muitas e sérias dúvidas sobre se o genocídio propagandeado pelo anticomunismo realmente existiu.

Todos os regimes em vigor, democracias e ditaduras, provocaram genocídios e massacres - a república americana quase eliminou os índios nativos; em África o colonialismo capitalista chacinou milhões de seres humanos; há discussão sobre se a carnificina de arménios pelo império turco, entre 1915 e 1923, é ou não um genocídio; o fascismo/nazi provocou o Holocausto; inúmeras ditaduras tiveram programas de eliminação física de apoiantes da oposição (uma espécie de genocídio ideológico) ou de etnias com reivindicações nacionalistas.

Não há nenhuma forma de regime que escape à autoria do crime contra a humanidade que significa a palavra genocídio e todos, também, tiveram os seus períodos de fomes violentas a provocar milhões de mortos.

Todos estes casos, incluindo o eventual Holodomor, devem ser estudados com seriedade e lealdade, nunca com histeria ideológica. Os mortos merecem-no e, se pudessem pronunciar-se, certamente dispensariam a manipulação política em curso. É esse o meu simples e modesto ponto.

Jornalista

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