O grande swing

Hilary Mantel, provavelmente a maior escritora do século XXI britânico, introduz o leitor ao seu primeiro romance histórico (A Place of Greater Safety, 1992) da seguinte forma: "Tudo o que lhe parecer particularmente improvável é provavelmente verdade". Mantel, que se instituiu literariamente através de retratos ficcionados de momentos de rutura (a Revolução Francesa, no livro citado; o anglicanismo de Henrique VIII, na trilogia Wolf Hall), partiu esta semana deste mundo, não se inibindo de deixar lições a quem nele permanece. Também nós, não há dúvida, atravessamos um tempo de transformações, ainda que sem a sorte de virmos a ser narrados pela pena de Hilary Mantel.

"Tudo o que lhe parecer particularmente improvável é provavelmente verdade", sugeria-nos ela. E o último ano de política, caseira e além-fronteiras, poderia ter sido apresentado do mesmo modo. A maioria absoluta de António Costa, ao fim de seis anos de governação. A resistência ucraniana ao Urso Russo, sete meses após a invasão. A remilitarização da Alemanha, noventa anos depois do Terceiro Reich. O regresso da inflação, a níveis não-vistos há três décadas. Um presidente da China que, contrariamente aos seus antecessores, não terá limite de mandatos. Um terceiro Carlos a reinar Inglaterra. Um presidente da América que colocará tropas em Taiwan em caso de invasão. Um almirante com potencial presidencial em Portugal. O Partido Socialista a cortar mil milhões de euros no sistema de pensões. Vladimir Putin forçado a mobilizar milhares de conterrâneos por dificuldades no terreno. Europeus com receio de morrer de frio, não nas ruas, mas nas suas próprias casas, este inverno.

Se esta lista lhe fosse lida há um ano, meu caro leitor, o riso seria a resposta mais óbvia, e mais lúcida. Mas, como advertia Mantel, tudo o que parece particularmente improvável será provavelmente verdade. Ninguém diria que, no espaço de quatro estações, as decisões de uma ponta à outra do globo passariam a ser tomadas de uma forma eminentemente política e cada vez menos económica. Excetuando o sr. Erdogan, exímio merceeiro entre lutas alheias, há uma prioritização do factor político na condução de Estados e governos que não encontra precedente na era do conforto (1989-2022), habitualmente referida como "globalização".

Em 2022, pela primeira vez em trinta anos, a China crescerá menos do que a média dos restantes países asiáticos. Segundo os últimos dados do Banco para o Desenvolvimento da Ásia (ADB), o crescimento chinês ficará pelos 3,3% este ano, manifestamente abaixo da média a que o Partido Comunista Chinês acostumou as praças internacionais e o seu povo. Apesar disso, Xi Jinping encaminha-se para uma consagração incontestada no próximo mês, em que receberá as chaves para um inédito terceiro mandato de cinco anos. A China, apostada numa política de abertura económica desde Deng (e desde Tiananmen), substituiu o crescimento como norte da sua governação. É a política mais ideológica, mais nacionalista, mais expansionista, que agora conduz Pequim. O sr. Xi quer saber mais dos números das suas Forças Armadas do que dos números do seu PIB - e isso é novo. O contrato silencioso entre o povo chinês e o seu partido único resistirá a essa alteração? É uma pergunta que definirá o nosso tempo e para a qual ninguém tem resposta.

Mas a verdade é que não foi só do outro lado do planeta que o espírito decisional dos políticos se inverteu. Também na Europa, onde a massa crítica exigia há anos que a economia deixasse de ser a estrela-polar entre governantes, a política ganhou uma nova primazia. Como é mais do que evidente, não era do interesse de nenhuma família e de nenhuma empresa europeia sancionar a Federação Russa, abdicar do seu mercado e da sua oferta energética. E, como é igualmente evidente, não tínhamos outra opção que não fazer isso mesmo depois de 24 de fevereiro. Tal como o sr. Xi, ainda que por motivos manifestamente opostos, também nós trocámos a supremacia dos números pela tentativa de convicções. O compromisso da União Europeia com a independência da Ucrânia é uma opção política feita apesar de custos económicos, quando as anteriores crises europeias, se repararmos, foram feitas na lógica inversa. A crise financeira, feita de escolhas financeiras apesar de custos políticos. E até a crise de refugiados, feita de escolhas humanitárias (e pragmatismo demográfico) apesar de custos também políticos. Hoje, a ordem das coisas é outra. Em nome da democracia, que não deixa de ser uma premissa política, as sociedades europeias enfrentarão sacrifícios materiais gigantescos. O contrato silencioso entre o povo europeu e a União resistirá a essa alteração? Essa é a outra pergunta que definirá o nosso tempo, e para a qual ninguém, por enquanto, tem resposta.

O referendo do Brexit, em 2016, foi uma antecâmara deste paradigma, em que a racionalidade económica é preterida pelo instinto político. O resto do mundo encaminha-se para aí; não livre de custos, não livre de riscos, mas crente.

A pergunta é: até quando?

Colunista

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