O Grande Médio Oriente de amanhã

Depois da retirada das tropas dos EUA e da NATO do Afeganistão e da vitória dos talibãs neste país, é óbvio que todos esses acontecimentos influenciarão fortemente a situação no Médio Oriente. A decisão americana de falar sobre a necessidade de não fazer parte das "guerras alheias" faz com que toda a doutrina americana de defesa da segurança no berço do terrorismo esteja a chegar a um ponto em que as questões sobre qual a nova estratégia ficarão sem respostas claras para o futuro.

O caos criado no aeroporto de Cabul durante os últimos dias da presença dos EUA no Afeganistão servirá para muitos líderes no Médio Oriente como um exemplo de possibilidade realista. Já há algum tempo, líderes de países da região mostram vontade de procurar as soluções de segurança através de acordos públicos ou secretos entre si, independentemente de, até agora, chamarem uns aos outros os maiores inimigos. Esses acordos são, às vezes, patrocinados pelos EUA, a fim de minimizar o seu futuro papel na defesa desses países, bem como a movimentação entre ex-inimigos. Os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein têm acordos com Israel que foram assinados publicamente na época do ex-Presidente dos Estados Unidos Donald Trump, mudando a antiga abordagem dos membros da Liga Árabe de não negociarem com Israel até que este país resolvesse os seus problemas com os palestinos. Seguiu-se Marrocos e, em certa medida, o Sudão, abrindo as portas para uma melhor cooperação pública com Israel também a nível empresarial.

A Arábia Saudita, que não assinou nenhum acordo com Israel, obviamente não se opõe à nova política em relação a esse Estado, dando sinais suficientes de que também está a cooperar em linha com os seus interesses, limitando-se a não o anunciar publicamente. Antes já se sabia que estes três Estados do Golfo tinham interesse em cooperar com Israel, tendo o mesmo inimigo: o Irão. Isso já não é verdade, porque esses Estados árabes estão a reduzir a sua retórica contra Teerão, com a intenção óbvia de pacificar o inimigo religioso tradicional e resolver as suas diferenças sem se envolverem nos interesses mais amplos dos EUA na região. Síria, Iraque e Líbia permanecerão como campo de batalha entre diferentes forças externas, usando líderes de guerra locais, o que significa que a sua influência na situação mais alargada no Médio Oriente permanecerá limitada. O Líbano vive a crise mais profunda da sua história. O Qatar está a conversar com os talibãs a fim de preservar, em nome dos americanos, algum contacto com eles. O Egito está a negociar com o Hamas em Gaza, para garantir que o cessar-fogo entre eles e Israel se mantenha.

Assim, o novo fator muito importante é a diminuição da influência dos Estados Unidos no Médio Oriente, que tem de pressionar todos os países a procurarem por si próprios as soluções, alcançando acordos, publicamente ou não, com quem possa criar problemas de segurança no futuro.

O governo israelita, por seu lado, entendeu, obviamente, que tem de ter algum tipo de diálogo com a Autoridade Palestina, de Mahmoud Abass, a fim de manter a coligação no governo com o importante Partido Árabe e também para não encorajar o Hamas da Faixa de Gaza a espalhar a sua influência na Cisjordânia. Se isso acontecesse, seria a mais séria ameaça à segurança de Israel dos últimos anos.

O problema remanescente permanece no conflito óbvio entre Israel e o Irão. O Presidente Biden ainda acredita que o acordo pode ser alcançado com Teerão para ressuscitar o acordo nuclear, para limitar a sua capacidade de aquisição de armas nucleares. Israel não apoia essa tentativa, mas não tem poder para impedir os americanos de continuarem a tentar. Se eles chegarem a um acordo com o Irão, não haverá maneira de Israel empurrar Washington para o aprofundamento do conflito com Teerão.

Em geral, a retirada dos EUA do Afeganistão é um exemplo das mudanças na política americana em relação à região mais alargada e deve influenciar todos os países da zona. Eles precisam de repensar o que podem fazer sozinhos, não excluindo automaticamente os inimigos dos EUA como seus, mas tentando ser pragmáticos ao máximo. O principal problema ainda é que a ausência de uma força externa forte, que não pode ser substituída por outra, certamente trará soluções inesperadas, mas infelizmente de vida curta. Isso significa que eles estarão expostos às possíveis provocações dos muitos grupos adversários, o que pode destruir a confiança nas tentativas do outro lado num instante.

Se uma coisa era tão complicada como a situação no Grande Médio Oriente no passado, ninguém deve pensar que não se pode tornar ainda mais complicado, especialmente porque a retirada dos EUA da guerra civil de 20 anos no Afeganistão acontece sob a pressão de um grupo local tão radical como o dos talibãs.

Investigador do ISCTE-IUL e antigo embaixador da Sérvia em Portugal.

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