O futebol vai mesmo morrer?

Evito falar de futebol porque é perigoso. Em primeiro lugar é perigoso para mim porque sei pouco e se sei alguma coisa sobre futebol o devo à profissão: toda a informação acumulada que tenho sobre esse fenómeno advém apenas desse exercício já com mais de três décadas e meia.

Escapa-me, por isso, uma componente essencial para perceber boa parte desse mundo, que é a paixão ou, para ser mais rigoroso, a febre clubística que leva as melhores pessoas que conheço, gente capaz dos gestos mais nobres e solidários, a ter comportamentos com o futebol que deveriam envergonhar qualquer indivíduo civilizado.

Sempre que vão a um estádio, veem um jogo na televisão ou discutem a jornada, no Facebook, no café ou, até, no emprego, esses milhões de homens e mulheres, os adeptos, passam de belos e belas a puros monstros... e em menos de cinco segundos! Não percebo.

Também não consigo perceber muito bem porque é que esse desporto vive num permanente estado de exceção dentro da sociedade: os adeptos à pancada, as claques violentas, as pessoas de cara pintada como guerreiros tribais de há cinco séculos, as invasões de campo, a polícia a condescender, os negócios esquisitos, a corrupção, as lutas pelo poder, os contratos milionários, as guerras com a arbitragem, os jogadores tratados como mercadoria humana, a glorificação desses "heróis" semelhante à que era feita aos gladiadores romanos, a traficância de direitos televisivos, a compra de espaços publicitários, a subserviência dos políticos aos dirigentes desportivos, o uso que outros políticos fazem do futebol em proveito próprio, a manipulação jornalística, as lutas selvagens pelo poder nas federações e nas ligas, o direito desportivo que parece estar acima das leis do resto da humanidade, tudo, mas mesmo tudo o que tem que ver com futebol me parece ou criminoso, ou irracional, ou anacrónico, ou estúpido... e é, sobretudo, perigoso: para a toda sociedade que perde, com o futebol, estrutura ética, e para qualquer indivíduo que se meta com ou no fenómeno.

Como penso assim e 99,9% das pessoas que me rodeiam acham que eu, nesta matéria, sou idiota (se calhar com razão) e porque me falta a tal componente de paixão que talvez me ajudasse a perceber uma parte das razões para esta realidade, meto a viola no saco e evito tecer comentários sobre futebol - prefiro opinar sobre política, que é mais fácil e, apesar de tudo, mais bem educado.

Acontece que, pelos tais motivos profissionais a que aludi no início deste texto, há cerca de 15 anos comecei a ouvir pessoas responsáveis do nosso futebol a discutirem a mudança do modelo da Liga dos Campeões para algo mais semelhante ao modelo de desporto de alta competição que vigora nos Estados Unidos, onde um conjunto de clubes, sujeitos a regras comuns de gestão do negócio e da competição, concorrem em provas fechadas - e isso afasta a promoção e a despromoção entre divisões, que é clássica na Europa.

Não é portanto uma novidade surpreendente, a não ser pela ocasião e pelo método, que apareça Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, a liderar uma lista de grandes clubes europeus a pretender fazer algo mais ou menos semelhante: basicamente o que esta gente pretende é retirar o controlo à UEFA, ficar com as receitas que lá vão cair, garantir o domínio do negócio, a perpetuidade do seu poder pessoal e a influência na sociedade dos clubes que dirigem.

Lembro-me de perguntar a um dirigente desportivo de um dos três grandes de Portugal, talvez há 10/12 anos, se ele não achava que a eventual existência dessa "superliga" europeia não daria cabo, até quase à morte, dos "mais pequenos", fossem eles os países europeus onde o futebol é menos competitivo, fosse, dentro de cada país, dos clubes que não tivessem acesso a essa liga logo na fase inicial.

Ele respondeu-me assim: "Se isto vier a ser assim já quase não será futebol, será apenas e só negócio, e nos negócios os grandes, mais tarde ou mais cedo, engolem sempre os pequenos."

Para o idiota em futebol que eu sou, esta frase de um expert na matéria soou-me assim: "É o capitalismo, estúpido!"

E, por isso, pergunto: o futebol, hoje em dia, não é, apenas e só, um negócio capitalista a funcionar? Então, se o é, para onde esperavam que o jogo evoluísse?...

Jornalista

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG