O fumo das sondagens

Passada a eleição, fica o fumo da fogueira eleitoral onde, em todos os ciclos políticos, se tentam queimar as sondagens. Faz parte da natureza humana justificar as insuficiências com motivos externos, fora da nossa esfera de ação e responsabilidade. E a humaníssima política não é exceção. Em tempo de eleições, as sondagens são frequentemente apontadas como a raiz de todos os males. Porque sub ou sobre estimaram a intenção de voto. Porque foram manipuladas, se não servem os interesses de determinada fação política. Porque erraram na aferição do resultado final e, portanto, são uma vigarice. A trituradora da simplificação serve muito bem as diferentes agendas políticas, mas erra, deliberada e conscientemente.

A sondagem eleitoral é um indicador de confiança que, a partir de instrumentos validados, afere a intenção de voto de uma população em determinado momento delimitado no tempo. Não é um instrumento de adivinhação, apoiado num algoritmo, e, sobretudo, não constitui nem determina o resultado de uma eleição. Pelo contrário, a sondagem pode ser um indicador essencial para permitir reforçar, corrigir ou mudar a estratégia partidária. Porque a opção política assenta maioritariamente numa avaliação que resulta de três variáveis de teor racional e emocional: o interesse próprio do votante, a filiação ideológica, a perceção sobre a atuação do partido e/ou do político. E a forma como o ator político se comunica determina o que se vê.

O facto de uma sondagem ser negativa para determinado candidato, ao contrário do que muitos gritam, não é uma profecia com realização antecipada. Energizar os apoiantes face a um indicador negativo, mudar estratégia, reforçar instrumentos de comunicação, contribuem para uma alteração da estrutura de sentimento dos votantes. A eleição de Carlos Moedas acabou justamente de o demonstrar.

Não é útil ao sistema democrático, nem é saudável, o debate politiqueiro em torno das sondagens. Casos como a eleição de Donald Trump em 2016, com o falhanço das sondagens à boca das urnas, demonstram sobretudo a incapacidade dos analistas lerem os instrumentos ao seu dispor. Certamente os métodos de sondagem têm-se vindo a adequar às alterações na estrutura comunicativa e às alterações socio-culturais em curso, porque na verdade os instrumentos lidam com perceções inexatas, emocionais e dadas à mudança. Discutir para melhorar é essencial à saúde democrática. Questionar para justificar a derrota é politiquice indigna.

Reitora Univ. Católica Portuguesa

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