A geopolítica não é um campo de moralidade, mas de eficácia. Os EUA sempre caminharam entre o papel de garantes da ordem liberal do pós-guerra e a defesa dos seus interesses vitais. Para o mundo, eram os good guys; nos bastidores, recorriam a operações encobertas e a narrativas de excecionalismo para justificarem desvios ao Direito Internacional. Esta hipocrisia funcional era um fator de estabilidade: a necessidade de manter a face impunha limites ao uso aberto da força.Esse mecanismo de autocontenção está hoje em erosão acelerada.Durante décadas, setores da esquerda nas democracias liberais criticaram os EUA, em particular, e os regimes ocidentais, em geral, por este papel ambíguo. Para estes críticos, Washington falava em democracia enquanto sustentava ditaduras amigas e instrumentalizava o Direito Internacional. Agora, confrontam-se com uma inversão desconfortável: os EUA aproximam-se, na prática, dos métodos dos regimes autoritários que esses mesmos setores viam como contrapoder à ordem liberal, adotando uma lógica de força desnuda que corrói o edifício jurídico que diziam querer superar.O que se observa na Venezuela é a transição de uma hegemonia normativa para um realismo transacional assumido.A Doutrina Monroe reaparece despida de verniz moral. O objetivo já não é a democratização por imperativo ético, mas a neutralização de um enclave duplamente hostil, criminal e político, no hemisfério ocidental e o controlo estratégico de um ativo energético crítico, num contexto em que a estabilidade das cadeias de abastecimento é, ela própria, uma arma.Do ponto de vista da inteligência estratégica, o fator determinante já não é a natureza do regime de Maduro – um ativo profundamente desgastado e dependente de suporte externo – mas a contenção da China e da Rússia.A Venezuela é hoje uma cabeça de ponte de Pequim na América Latina e uma alavanca de projeção russa.Ao asfixiar o regime, Washington não visa apenas a queda de um ditador e cortar o tráfico de droga com aquela origem, procura encarecer as rotas energéticas chinesas e sinalizar que a sua esfera de influência não é negociável.A mudança em Washington é também estética. À frente da Casa Branca está alguém que não quer ser o good guy, nem o “mau bom” de Hollywood, mas o vilão explícito que declara: se os outros atropelam regras, eu também posso fazê-lo.Claro que, no caso da Venezuela, há Trump, e depois há os verdadeiros estrategas, nomeadamente Marco Rubio.Mas ao abdicar da necessidade de parecer moralmente superior, os EUA soltam as amarras da autocontenção.O maior predador do sistema deixa de fingir que cabe na jaula das instituições.Esta perda de pudor sinaliza a erosão do multilateralismo e do direito internacional tal como definido após a II Guerra mundial. Quando a potência garante do sistema decide jogar pelas regras dos seus adversários, o Direito Internacional passa de árbitro a obstáculo descartável.Na Venezuela, o mundo assiste ao maior predador do sistema a testar os limites da jaula institucional. Sem a máscara do good guy, sobra o poder bruto.E num mundo onde os grandes predadores perdem a autocontenção, a questão para Estados, como os europeus, deixa de ser “quem tem razão” para passar a ser “como sobreviver sem se tornarem presa óbvia”. Analista de Estratégia, Segurança e Defesa