Para um eleitor não-socialista, o resultado do PSD no passado domingo sugere duas leituras positivas: é bom o suficiente para este continuar como grande força política, e é mau o suficiente para Rui Rio não continuar como seu líder. Ao fim de quatro anos e quatro derrotas consecutivas - europeias, legislativas, autárquicas e antecipadas -, o tempo do ex-autarca à frente dos sociais-democratas terminou. Bizarro até no desfecho, resmungou em alemão, recusou demitir-se explicitamente e viu David Justino confirmar 24 horas depois que a direção estava de saída e que seria convocado um congresso. A "anomalia no sistema político", como Vasco Pulido Valente o denominou na sua última entrevista em vida, acabou. E ainda bem. Os seus dois mandatos como presidente do PSD dinamitaram os equilíbrios constitucionais da República, oferecendo de mão beijada a governação ao socialismo e a oposição ao populismo. Mas a longa sesta do PSD na Assembleia não adormeceu os demais partidos na sua área política. Coincidentemente, o povo seguiu nas urnas o exemplo de Rio no parlamento: entregou o governo ao PS e a oposição a Ventura (e a Cotrim). De 2019 para cá, afinal, já era assim..Rio, como outros líderes partidários antes de si, sofreu as compreensíveis dificuldades de desenhar uma estratégia num ambiente político em metamorfose. Com o sistema em transformação e a conjuntura em crise, todo o posicionamento é propício ao erro. Foi isso que vitimou Passos, convencido de que o Partido Socialista não aguentaria a pressão entre ideologia e orçamento após a "geringonça", ou Assunção, confiante de que o voto útil que beneficiara os grandes partidos durante quarenta anos se havia extinguido desde então, ou até Costa, que só se aproximou da maioria absoluta quando deixou de a pedir..Fruto da mesma instabilidade na paisagem, Rio cometeu um erro diferente. A sua estratégia estava desenhada para um tempo que passou. O mantra do "Portugal ao Centro" esperava que o centro chovesse no PSD porque Rio cantava aos céus por essa chuva. Mas a maioria, nestas eleições, não estava ao centro. Contrariamente ao repetidamente apregoado por Rio - e verificado na nossa história democrática -, estava à esquerda. Basta olhar as transferências de votos do BE e do PCP para o Partido Socialista para entendê-lo. Os portugueses não só preferiram uma crise gerida pelo PS do que pela direita, como não confiaram num PSD que pudesse depender - em que formato fosse - do Chega, como dispensaram prosseguir o folclore parlamentar entre as esquerdas e António Costa. O resultado, bem mais fácil de explicar do que de antecipar, foi a maioria absoluta. E o PC e o Bloco, que salvaram Costa em 2015, viram os seus eleitores salvarem-no das suas mãos em 2022..Poderia ter sido de outra maneira? Sim. Sem Rio. Ou melhor, sem rioíces. Não passa pela cabeça de ninguém montar uma campanha num andaime de brincadeiras e gatinhos a meio de uma pandemia. Um país que vive em crise sanitária há dois anos não quer piadas; quer segurança, certezas e rumo. E Rui Rio não foi capaz de oferecer nada disso. Sobre temas fundamentais ‒ saúde, segurança social, salário mínimo ‒ foi ambíguo quando não incoerente, errático quando não dissimulado. O adorável "Zé Albino" rapidamente deu lugar ao Rui Rio acusador. Entre um e outro, sobrou pouco. O PSD que apontava ao centro ficou entalado no meio ‒ entre os que sabem o que querem e os que sabem o que não querem..Rio, líder inexistente, candidato itinerante, eventual primeiro-ministro arrepiante, foi ironicamente um presidente do PSD importante para o seu partido. Inaugurou uma nunca antes tolerada sala de espera para o poder, sarou feridas sociais do período da troika, iniciou uma remontada autárquica determinante para a sobrevivência do PSD como partido nacional do regime e manteve o score dos 27% apesar da proliferação de forças à sua direita e de uma maioria absoluta socialista..De resto, é dizer adeus à anomalia..E não repetir os seus erros..Colunista