O estrangeiro em todos nós

respiro um certo estrangeirismo
que há dentro de mim

Mónica Vieira Auer, Antes Ontem que Amanhã, Prémio Ferreira de Castro, coleção Comunidades Portuguesas, Imprensa Nacional, 2021

A vida de um diplomata, esse singular estrangeirado que é pago para se expatriar, tem os seus tempos de ansiedade (qual será o meu novo posto?) e os seus tempos de tranquilidade, feliz ou resignada, consoante o lugar que finalmente lhe foi atribuído. Tudo é possível, todos os continentes e todas as experiências estão em aberto à nossa frente, e, tal como qualquer vida, é o acaso cruzado desses destinos que vai desenhar o retrato que no nosso fim deixaremos. Cada um é fruto de si mesmo, dos seus encontros e experiências, da sua circunstância, como dizia Ortega y Gasset. Desta perspetiva, não deixa de ser exaltante essa incerteza de ter o nosso percurso e o nosso destino periodicamente suspensos e dependentes de decisões alheias.

Partilhamos com os outros estrangeirados poder ver a nossa pátria com o olhar de fora e viver em terra alheia com o olhar que é nosso. Os mais cosmopolitas dos portugueses são em primeiro lugar aqueles que tiveram de abandonar o país para procurar fora dele as condições mínimas para uma existência digna. Através deles nos tornámos nós todos também um pouco brasileiros, um pouco americanos e plenamente europeus. Do mesmo modo que a África, por outros contos, está connosco no nosso viver comum, assim esta dispersão dos portugueses no mundo nos tornou a nós, em Portugal, mais cosmopolitas e plurais.

O diplomata, no seu rumo incerto e errante, vai encontrar-se com esses portugueses expatriados nas mais diversas sociedades e nas mais diferentes condições. É um encontro que nos faz entender melhor o aparente paradoxo de Fernando Pessoa quando diz que o português é tanto mais português quanto menos português for: porque as identidades só vivem no encontro, no confronto e no diálogo com outras identidades e o estrangeirado, tal como o poeta, é o primeiro a compreender que "Eu é um outro" (Rimbaud).

Essas culturas híbridas que nascem das migrações são afinal o sinal da mestiçagem em que assenta qualquer cultura, qualquer civilização. As denegações identitárias são apenas o sinal da mediocridade de quem se fecha ao mundo. Quem quer ser só português não é bem português, lembra Pessoa.
Tive logo no início da minha carreira postos que quis e por que me bati (Luanda) e postos que tive como recompensa ou compensação por outros lugares difíceis (Madrid). Mas confesso o paradoxo que foi ter tido os dois postos mais apaixonantes da minha vida (Rio de Janeiro e Nova Deli) contra a minha vontade expressa. O acaso dá-nos a felicidade quando não esperamos, tal como Némesis nos põe em desgraça de tempos em tempos. Mas nunca me esqueço o que me disse um dia o meu colega e amigo embaixador António Monteiro, num momento em que a minha estrela no Ministério andava mais por baixo: "uns tempos estamos na moda, outros tempos na mó de baixo: mas tudo roda como os alcatruzes da nora".

Nesse intervalo de tempo em que nós diplomatas não sabemos que desafio nos espera nos próximos anos, de uma coisa podemos estar certos: qualquer que ela seja, com prazer ou desprazer, a experiência que vamos ter nos ensinará algo que não sabemos e ajudará a fazer de nós o que somos, como o fruto a amadurecer na árvore. Assim estejamos abertos para receber e entender tudo o que nos cerca e para respirar plenamente o estrangeirismo que há em nós, na feliz expressão da poeta portuguesa residente na Alemanha Mónica Vieira Auer.


Diplomata e Escritor

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