O Estado visto da janela da CCP

Passada a pandemia, reemergem em todo o seu esplendor a mediocridade e a mendicidade de uma certa geração de representantes dos empresários. Para ser franco, não me espanta. Foram segurados pelo Estado durante toda a crise sanitária, tiveram salários pagos, contribuições reduzidas, moratórias nas suas dívidas e por aí fora, mas agora voltam ao velho e gasto discurso de ódio ao Estado, ambicionando sempre a socialização dos prejuízos, por oposição à privatização dos lucros.

Ser empresário é uma opção de grande mérito e está na base de um modelo de criação de riqueza em que acredito profundamente. Ao empresário compete criar valor e emprego, pagar salários, retirar lucro e pagar impostos. Sim, impostos, porque aquilo que o sistema capitalista não resolve, ou destrata, é garantido pelo Estado, que protege o coletivo da sociedade. Além disso, o empresário competente sabe que só o risco justifica o lucro e que os lucros de hoje têm de assegurar eventuais prejuízos de amanhã.

Este não parece ser o pensamento do líder da Confederação de Comércio e Serviços de Portugal (CCP), João Vieira Lopes, que, em entrevista ao Dinheiro Vivo de ontem, dispara para todos os lados, revoltado por o Estado dos portugueses não ser o Estado das suas empresas.

As organizações empresariais estão sempre prontas para apontar o dedo ao Estado, vestindo a pele de cordeiro como se não fossem parte do problema.

Sobre o Orçamento do Estado, ficámos a saber que a CCP acha que o caminho só pode ser reduzir impostos às empresas e fazer o mesmo aos consumidores. Ou seja, o OE deve estar ao serviço das empresas da CCP, poupando na fatura fiscal e colocando dinheiro no bolso das famílias, para irem a correr alimentar os seus lucros. Entretanto, reduzir os recursos financeiros do Estado, aumentando o défice e a dívida, não parece ser problema. Esperava da CCP uma maior atenção à subida de juros planeada pelo BCE e à importância crítica de manter as contas públicas em ordem.

Um dos pontos altos da entrevista é o ataque ao Estado. Mais do que brutal, é ideológico. Segundo Vieira Lopes, o problema de fundo do Estado é ter uma produtividade média baixa e faz a comparação com a excelência das empresas. Não que o Estado seja um modelo de eficiência, mas considerá-lo pior que a média, por exemplo, das empresas da CCP só me suscita espanto. O entrevistado chega a afirmar que, na pandemia, as empresas se adaptaram melhor, com o teletrabalho, baixas, faltas, etc. É mentira. Muitas empresas fecharam, usando as várias modalidades apoiadas pelo Estado. Este, e os seus funcionários públicos, nunca pararam. Nunca, dando ao país uma demonstração de serviço público, em todas as áreas da administração. Não vale tudo na argumentação corporativa. Repetir uma mentira não faz dela uma verdade.

As organizações empresariais estão sempre prontas para apontar o dedo ao Estado, vestindo a pele de cordeiro como se não fossem parte do problema. Por isso, fica aqui o desafio: quererá o presidente da CCP falar, especificamente no seu setor, de produtividade, salários baixos, economia paralela, fuga aos impostos e cartelização de preços? Ou preferirá, como fez na entrevista, desculpar a evidente especulação na subida de preços, bem como os lucros extraordinários de que muitas empresas estão a beneficiar?

Para desgosto de alguns, Portugal não é uma república das bananas. Por isso, é hora da sociedade e dos poderes democráticos - incluindo o Presidente da República - se mobilizarem para travar esta campanha em curso, que visa desqualificar o Estado e os seus servidores.

Professor catedrático

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