O escorpião veste laranja

A noite eleitoral começou com muitas resmas de papel a serem despachadas para a reciclagem. Tantos meses e tanto empenho a prever que Rui Rio teria de apear e, afinal, as sondagens à boca das urnas apontaram os holofotes para o Largo do Rato. Os resultados conhecidos ao longo da noite (este texto ficou fechado às 24h00) ajudaram a dar um sabor a vitória a uma derrota há muito anunciada. Esta liderança social-democrata está, aliás, a beneficiar constantemente da gestão das expectativas porque, com tantos "amigos" no seu próprio partido e na opinião publicada, que lhe apontam sempre o pior dos destinos, Rui Rio sobrevive politicamente mesmo com derrotas.

Rio é responsável por uma liderança que não entusiasma o eleitorado de direita, mas faz muito pouco sentido acusá-lo de dividir o partido, quando são os seus adversários que apontam às campanhas (momento em que todos deviam remar para o mesmo lado) para se afirmarem candidatos à sua sucessão. A pretexto de corresponder à vontade do líder, transformam o apoio a candidatos numa marcação de terreno, fazendo como o escorpião que apanhando a boleia não se importa de ir ao fundo para cumprir a sua natureza. Pouco espertos, porque se há coisa que Rio faz bem é aparecer como vítima. E se lhe dão razões para se queixar do próprio partido, melhor ainda.

Quando Paulo Rangel recusou ser candidato autárquico no Porto que argumento usou? Esse argumento perdeu a validade? Era suficientemente forte para recusar um combate autárquico, mas não resiste ao apelo de uma liderança partidária? Luís Montenegro, que esteve hibernado durante um bom período de tempo, mas que se sentiu na obrigação de dar um passo em frente, quando Rangel falou, o que temia? Uma debandada dos seus apoios para o campo do eurodeputado? E Luís Filipe Menezes procura o quê?

A liderança do PSD assemelha-se à Roda da Sorte, popular programa de televisão, em que os candidatos vão ganhando o direito de rodar e logo se vê a quem sai o prémio, aquele que dá o direito a disputar o cargo de primeiro-ministro no exato momento em que se aproxima a mudança de ciclo político. Está sempre na memória a ideia de que o poder não se ganha, perde-se e nestas alturas cresce o desejo de estar no sítio certo para o apanhar.

Mas soa a desespero quando se ouve comentadores da área social-democrata agarrar-se a uma sondagem para as legislativas (daqui a dois anos), mesmo depois de Rio ter avisado antecipadamente que isto ia acontecer, para salientar que o PSD precisa, de qualquer forma, de mudar de líder para conseguir vencer António Costa. Um partido em que muitos militantes preferiam que a derrota fosse mais pesada é também um partido que não gera grande confiança nos eleitores e isso devia importar a quem tem ambições de um dia o liderar. É um caso de estudo, Rui Rio é imune ao veneno do escorpião, parece até que é esse veneno que lhe dá sete vidas.

Jornalista

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