O Dia Mundial do Doente e a humanização da medicina

Quando, há 29 anos, o Papa João Paulo II instituiu o 11 de fevereiro como Dia Mundial do Doente tinha o objetivo de sensibilizar profissionais e autoridades de saúde, bem como a sociedade em geral, para a importância de apoiar os doentes nas suas necessidades.

A pessoa doente, além da patologia física e/ou mental que a aflige, apresenta níveis diferentes de incapacidade e desvantagem associados. Tudo isto a fragiliza, impossibilitando-a, até, de procurar os recursos apropriados e de defender os seus inequívocos interesses e direitos estabelecidos. Por isso, o acesso do doente aos cuidados de saúde tem de estar equitativamente garantido e facilitado, com a certeza de que ocupe o centro do sistema de saúde.

Para que isto aconteça, temos de assegurar que o doente é verdadeira e realmente o foco dos cuidados de saúde, tornando-o o objeto de todos os atos, ações e intervenções que têm a finalidade de diagnosticar e tratar a(s) sua(s) doença(s) e, assim, melhorar o seu quadro clínico e, sempre que possível, recuperar completamente o seu estado de saúde.

O crescimento constante dos avanços e inovações tecnológicos na saúde tem contribuído decisivamente para a melhoria das condições de diagnóstico - precisão, certeza e celeridade - e para a otimização das intervenções terapêuticas - eficácia, tolerância e adesão.

Se estes incrementos tecnológicos apresentam indiscutíveis benefícios, melhorando a qualidade dos cuidados de saúde, sobretudo ao nível da sua generalizada utilização e eficiência, também têm riscos associados que importa reconhecer e obviar. Desde logo, riscos de redundância, de privacidade, de segurança, de custos e de humanização. Discorrendo apenas sobre esta última possibilidade, o crescimento da utilização de tecnologias em saúde pode dificultar a relação médico-doente, tornando-a menos atenta, assertiva e afetuosa.

Aliada à vertente tecnológica, cujos interesse e mais-valia assistenciais não se podem pôr em causa, deverá estar sempre a atenção devida às particularidades e à cultura de cada doente e à defesa dos seus direitos, alicerçadas na atitude profissional e ética do médico.

O sobreuso e o abuso na utilização dos meios tecnológicos, muitas vezes com intenção defensiva do médico, não só aumenta os custos dos cuidados de saúde como os desumaniza. A dependência tecnológica dos médicos, dos doentes e dos seus familiares prejudica gravemente a sua relação e, assim, a empatia e a confiança entre eles. Por exemplo, os registos clínicos eletrónicos, indiscutível avanço e vantagem tecnológica em saúde, traduz-se, invariavelmente, na redução da duração e da qualidade da comunicação entre os doentes e os médicos. E a mais importante e frequente causa de erro médico, e mesmo de conflito entre doentes e médicos, é precisamente a deficiente comunicação entre si.

Grande parte deste desalinhamento advém da rápida expansão tecnológica, que não foi acompanhada pela devida preparação dos alunos de Medicina, para a balançar com a "arte" de ser médico. Há, pois, que os educar e ensinar sobre o equilíbrio do uso das tecnologias custoefetivas e da prestação de cuidados atentos e convergentes no doente.

Ninguém duvida de que o doente deve poder beneficiar da tecnologia, quando esta é utilizada corretamente, sem que dela fique dependente. Mas também ninguém duvida de que o gesto e a palavra do médico são fundamentais para o doente, que, reforçando o princípio, tem de estar no centro dos cuidados de saúde.

Diretor do Serviço de Reumatologia no Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, EPE - Hospital de Egas Moniz. Professor catedrático e diretor da Nova
Medical ​​​​​​​School - Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

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