O coronavírus e a necessidade de verdade epidemiológica

Às vezes fico com a sensação de "estar em contramão na autoestrada". Todos os dias "lemos e ouvimos" os dados revelados pela DGS. Casos, óbitos, internamentos, cuidados intensivos e "recuperados". Depois, desdobrados por regiões, e sem qualquer taxa relativa à população (tão diferente!) de cada região. Vemos esta ligeireza científica nos telejornais, nos colunistas, nos participantes de n painéis dos canais de televisão, nas redes sociais, nos políticos que comentam a pandemia, encartados como epidemiologistas - coisa que, para mim, requereu anos e anos de especialização e aprendizagem constante - ou de epidemiologistas que, depois, vêm a ser candidatos autárquicos, etc. Ainda hoje tive a oportunidade de ver alguém a dizer que se vacina mais no centro do que em Lisboa e vale do Tejo sem ter o cuidado (e o respeito pelos espectadores) de falar do processo e de como, em vilas ou cidades com menos habitantes, uma "caixa" de vacinas dá para vacinar idades mais jovens, para não haver desperdício de vacinas.

Depois de quase 30 anos a ensinar epidemiologia e saúde pública, e a encapelar-me com os meus alunos de cada vez que faziam "vista grossa" relativamente a um viés, ou quando facilitavam a análise de dados carecendo de rigor e de pensamento crítico, dava-lhes uma reprimenda. Para aprenderem que o rigor, o escrúpulo e o espírito analítico e ponderado são fatores indispensáveis em qualquer avaliação de dados. E que a avaliação "a cem à hora" geralmente dá asneira.

Alguém terá dito, um dia, que "se torturarmos os números devidamente, eles confessarão o que nós queremos ouvir!", ou, numa versão "ligeiramente" mais suave, "Se espremermos bem as estatísticas, elas acabarão por verter algum sumo!"

Estas palavras prévias ocorrem-me num momento em que, desde há quase ano e meio, registo os dados que nos são dados (passe o pleonasmo!), e constato que há coisas que não consigo entender. Provavelmente, sou eu que estou em contramão, nesta autoestrada da informação. Todavia, como creio vivermos num país livre, vou partilhar convosco algumas das minhas inquietações... ou perplexidades, talvez.

Perante uma pandemia, que se vai tornar em endemia e depois em doença por surtos, como todas até aqui, com duração limitada (embora variável ao longo dos tempos), o que importa são diversos aspetos:

- Reduzir a mortalidade, se possível a 0: os dados da mortalidade, mesmo que com alguns erros inerentes à complexidade do processo de determinação de causas de morte, mostram que "vencemos" o pior e que nos encaminhamos para uma situação incrivelmente melhor. Importa também esclarecer que os meios de comunicação que, em janeiro, apregoavam ser Portugal "o pior país do mundo" estavam a ser imprecisos e, diria mesmo, sensacionalistas e "mentirosos", dado que, na maioria dos países do mundo, os sistemas de avaliação e comunicação de causas de morte são muito incompletos e imprecisos (quando não falseados) em comparação com o nosso - acham, verdadeiramente, que há dados da Síria, Iémen, Chade, Nigéria, Afeganistão, Paquistão, Congo... poderia continuar longamente esta listagem. Entre os cerca de 300 óbitos que acontecem por dia em Portugal, por todas as causas de morte, a covid será uma parte mais do que ínfima (já o é).

- Diminuir os pacientes em cuidados intensivos ou os que "passam por lá": depois de algumas semanas em que os números assustaram, agora Portugal está estável, o risco de rutura está controlado, e desejando fervorosamente que ninguém tenha de estar ligado a um ventilador ou nos cuidados intensivos (sei o que é esta última versão), o SNS tem capacidade de dar resposta a todos os casos, mais àqueles que necessitam de ventiladores por outras patologias.

- Reduzir os internamentos: verifica-se de forma consistente. Haverá, sempre, um ou outro caso, mas a tendência é evidente. A covid-19 será uma doença residual, face a todos os outros casos de doenças.

- Proteger as pessoas que eventualmente tenham situações de risco acrescido: o que já está a ser feito através da vacinação.

Ficam os "casos". Os tais que fazem que o primeiro-ministro do Reino Unido retire Portugal do "corredor verde", mesmo que possamos conjeturar que o faz para se vingar do (falso) problema da vacina de Oxford ou para estimular o turismo interno britânico. Mas... o que vale um "caso"?

Quando se fala do aumento de casos (e, portanto, da incidência na população), tem de se levar em linha de conta, obrigatoriamente, o número de testes.

Numa doença que vai "do nada ao tudo" e que, sobretudo em populações mais jovens, que são naturalmente agora as mais atingidas - por vacinação dos mais velhos e por doença, também, dos mais velhos -, é tendencialmente assintomática, os números só podem ser honestamente avaliados se forem analisados em função do número de testes. Nas últimas semanas, por exemplo, houve testagem em massa em várias zonas do país, designadamente nas escolas, já sem falar da facilidade entretanto introduzida dos testes em farmácia e dos testes em casa, e também por, por exemplo, algumas câmaras municipais terem pago testes aos seus munícipes.

Se fizermos dez testes e tivermos cinco casos positivos, e no dia seguinte cem testes e dez casos positivos, dizemos que os casos duplicaram ou, pelo contrário, que diminuíram cinco vezes? Qual a honestidade científica e epidemiológica? Espanta-me que ninguém cite estes dados (casos positivos/número de testes) em lado nenhum. E eles existem.

Quando fui diretor do Observatório Nacional de Saúde, há 20 anos, bem me esforcei para que os dados fossem públicos e acessíveis a todos, obviamente expurgados de tudo o que identifica as pessoas. A DGS da altura não gostou, e a DGS de hoje parece ter esquecido o que, repito, me levaria a considerar "chumbar" um aluno que não me desse essa perspetiva das coisas.

Andamos todos (e Mr. Boris Johnson também) a lidar com números epidemiologicamente incorretos e que não nos dão o que desejamos: a verdade. Como médico pediatra e de saúde pública, cidadão, pai e avô, quero a verdade sobre a pandemia, e não dados avulsos mal analisados e mal escrutinados, que só alimentam os movimentos negacionistas e as abjetas teorias da conspiração.

Será que sou eu que estou a ver mal? É possível. Se calhar, como referi, estou em contramão na autoestrada.

Se a covid-19 fosse como uma meningite ou uma apendicite, por exemplo, claro que todos os casos acabariam (espero que rapidamente) diagnosticados. Saber-se-ia de todos. Todavia, uma doença que é tantas vezes assintomática ou que pode dar sinais iguais a "mil e uma outras doenças", o ratio relativamente ao número de testes é que expressa estatística e epidemiologicamente a verdade.

Atirarem-nos diariamente à cara, quase literalmente, com os mesmos dados é "mais do mesmo" e não nos revela nada, nomeadamente até para uma comparação com outros países e para rebater os argumentos dos "Mr. Johnsons" deste mundo.

Uma palavra para os meios de comunicação, que como se sabe (alguns, eventualmente a maioria) gostam de "gordas" apetitosas e até escandalosas. Num curso que fiz, na BBC, sobre "comunicação e saúde", bem me ensinaram que "ou tragédias ou milagres". O que é revelado, como "o caso da enfermeira Mariazinha que fintou a vacinação", "o caso do Zé das Osgas que teve uma reação secundária" ou o caso do centro de vacinação em que "a senhora Joana dos Aventais esteve duas horas ao sol, à espera para ser vacinada", é incorreto, estimula o negacionismo e fomenta as correntes antivacinação, que pensam que, numa terra plana, o Sr. Gates e o Sr. Soros injetam chips no nosso corpo para nos tornarem autómatos acéfalos.

Os meios de comunicação têm de pensar, refletir, analisar, debater, ter pensamento crítico... e muitos não têm, com a pressa em dar a notícia, e com a pressa de fazer copy-paste da Lusa, das redes sociais ou até de outros meios de comunicação, para "não perder o comboio". Fica esta mágoa, relativamente a uma área de que gosto particularmente, e que considero um dos pilares mais importantes da democracia e da liberdade.

Já nem vou falar no estafado R(t), quando não se sabe, na maioria dos casos, qual foi a fonte de comunicação, ou quando alguém contaminar cônjuge e quatro filhos é bem diferente de contaminar cinco pessoas avulsas.

Fui especialista na DGS durante mais de 20 anos. Tenho pena de não lá estar, porque diria aos meus "chefes" exatamente o que escrevo aqui. Fica escrito. Pensem, reflitam, procurem os dados, analisem, façam o trabalho de jornalismo e de cidadãos. Só assim poderemos encarar esta fase final da pandemia com lucidez, rigor e... verdade.

Ou então vou mesmo em contramão... e nesse caso,... chamem a polícia!

Médico pediatra

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG