O coro das (o)velhas

Somos um país premiado como destino e valoroso organizador de finais de futebol, só não temos quem nos governe, nem quem faça oposição. De resto, "cá se vai andando c"o a cabeça entre as orelhas". Andámos nisto toda a semana passada, com um Bloco de Esquerda incapaz de se decidir pela reconciliação ou pelo divórcio definitivo, um PCP de regresso às greves na Função Pública, o único sector do país onde não paira a ameaça do desemprego, e uma direita patética que reúne para dizer mal de si própria.

Se ao menos alguém tivesse mão nisto e, com brio profissional, procurasse gerir o condomínio, mas nem isso! Basta a bola começar a rolar para se perceber que não há autoridade do Estado para fazer cumprir as leis que produz. Precisamos de regressar a Sérgio Godinho para encontrar uma imagem que sintetize a relação dos portugueses com o ministro Cabrita : "Não sei ler nem escrever mas não me ralo/Alguns há que até a caneta lhes faz calo/É só assinar despachos e decretos/P'ra nos dar a ler a nós, analfabetos".

Marcelo sabe bem que a hora é de apanhar os cacos. Pouca coisa resiste a tanta inabilidade. Um ministro que tutela as autoridades de segurança, mas em quem ele próprio não tem autoridade nenhuma, uma ministra de Estado que anuncia um evento em condições que nunca se verificaram, um ajudante de ministro, em estilo desportivo, que se gaba de ter tudo programado, primeiro em Lisboa e depois no Porto, mas que corre a sacudir a água do capote quando surgem os problemas e um primeiro-ministro que a todos do seu governo elogia. Enquanto nós fazemos de Felisbela, Felismina, Adelaide, Amelinha, Maria Berta e Zulmirinha.

Depois, olhamos para as sondagens e custa-nos a acreditar no que elas nos dizem. Se um governo desgovernado se limita a deixar seguir o país para onde o vento o empurra, seria de esperar que a vontade de mudança começasse dentro do próprio partido que está no poder, mas Pedro Nuno Santos já anunciou que se cala, porque pela boca morre o peixe e as ambições pessoais prevalecem neste momento. Faz de Pedro Passos Coelho (o desejado), que também se cala, porque não controla para onde o vento sopra. Seguimos todos como rebanho de ovelhas para onde nos quiserem levar, já com o pastor Marcelo reduzido à condição de ajudante do pastor António.

O poder caiu na rua! Depois da festa do título em Lisboa, das festas do Bairro Alto e do vale tudo na Ribeira do Porto, parece-me que só chamando o exército se convence as gerações mais novas de que há leis para cumprir. E isso ninguém fará, porque ninguém o deseja fazer. Mais cedo do que se esperava, bem mais cedo do que se esperava, estamos outra vez com necessidade de restringir liberdades. Sim, há uma responsabilidade dos cidadãos que não cumprem as mais elementares regras sanitárias, mas por onde andou a autoridade do Estado quando todo o país ficou à espera de a ver ser posta em prática para pôr fim aos excessos?

Como não precisamos, nem queremos, homens ou mulheres providenciais, temos de safar-nos com o que há. É tempo do mais alto magistrado da Nação impor a autoridade que lhe deu recente eleição com mais de 60% dos votos. Não se fique pelas falinhas mansas e raspanetes de circunstância, exija publicamente que o governo governe e reponha a autoridade do Estado. Recear consequências políticas de uma exigência maior da sua parte pode conduzi-lo à inação e isso torna-o cúmplice e co-responsável pelo pântano em que nos estamos outra vez a transformar.

Jornalista

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