Há momentos em que os sinais de rutura deixam de ser episódios dispersos e passam a formar um padrão inteligível. É isso que hoje se observa no sistema internacional. Na ONU, dois membros permanentes do Conselho de Segurança violam a Carta que juraram defender. Na NATO, um Estado-membro ameaça militarmente outro. Na União Europeia, a desagregação alastra entre e no interior das instituições. E na OMC, o sistema multilateral de comércio encontra-se soterrado sob tarifas, exceções unilaterais e bloqueios políticos persistentes.Nenhum destes fenómenos é acidental ou episódico. Em conjunto, revelam uma crise profunda da arquitetura internacional construída após 1945, assente na ideia de que o poder deveria ser contido por regras, exercido através de instituições e legitimado por um mínimo de consenso normativo. O que hoje está em causa não é apenas a eficácia dessas instituições, mas a própria premissa fundadora de que a força deve ser subordinada ao Direito e não o inverso.No caso das Nações Unidas, a contradição é estrutural e corrosiva. O sistema foi desenhado para evitar o regresso da guerra, mas confere a 5 potências um poder de veto que, em contexto de divergência estratégica profunda, bloqueia qualquer ação coletiva relevante. Quando o veto é usado para proteger violações claras da Carta, o Conselho de Segurança deixa de ser um mecanismo de gestão da paz e transforma-se num espelho da fragmentação do sistema internacional.Na NATO, a erosão assume uma natureza distinta, mas igualmente inquietante. A Aliança Atlântica não é apenas um pacto militar, mas uma comunidade política baseada na confiança, na previsibilidade e na solidariedade estratégica. Quando um aliado ameaça outro com o uso da força, introduz-se uma lógica de dissuasão interna que mina o princípio da segurança coletiva. A NATO continua operacional do ponto de vista militar, mas a sua coesão política revela fissuras que não podem ser ignoradas.Na UE, a crise é mais silenciosa, mas potencialmente mais duradoura. A fragmentação entre Comissão, Conselho e Parlamento, a crescente judicialização de decisões eminentemente políticas e a divergência estratégica entre Estados-membros quanto ao lugar da Europa no mundo enfraquecem a capacidade de ação externa da União. A UE mantém um poder normativo significativo, mas tem dificuldade em transformar esse poder em influência estratégica num contexto de competição aberta entre blocos geopolíticos.Já na OMC o bloqueio é quase absoluto. O sistema de resolução de litígios está paralisado, as grandes potências recorrem a tarifas e subsídios como instrumentos de política externa e o comércio internacional regressa a uma lógica de força e retaliação. O multilateralismo comercial, um dos pilares centrais da globalização regulada, encontra-se funcionalmente suspenso.O denominador comum é claro: as instituições continuam formalmente de pé, mas o consenso político e normativo que lhes dava sentido está a desaparecer. Não estamos perante um colapso súbito da ordem internacional, mas perante um colapso por erosão gradual e normalizado.Este tipo de colapso não provoca ruturas imediatas mas corrói progressivamente os mecanismos de contenção do poder. As regras continuam a existir no papel, mas deixam de orientar o comportamento dos principais atores. A previsibilidade diminui, a exceção torna-se regra e a arbitrariedade ganha espaço.O mundo não entrou ainda numa nova ordem internacional. Vive, isso sim, num interregno instável, em que as regras antigas já não conseguem conter o poder e as novas ainda não foram acordadas. A história mostra que estes períodos de transição raramente são neutros ou pacíficos.Ignorar os sinais seria um erro estratégico e continuar a gerir a crise como se fosse apenas conjuntural poderá revelar-se, a prazo, a mais grave ilusão do nosso tempo. Professor Convidado UCP/UNL/UÉ