O Brasil está de volta?

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O discurso lido pelo presidente Lula da Silva no passado domingo, na cerimónia do seu empossamento, alimenta as expetativas criadas com a sua vitória nas últimas eleições gerais no gigante sul-americano e que podem ser resumidas com uma espécie de slogan: o Brasil está de volta.

Recorde-se alguns dos fatores que concorrem para a importância global do Brasil: é o maior país da América do Sul; é uma potência económica média, tendo chegado, precisamente quando Lula foi presidente as duas primeiras vezes, a ser a sexta economia mundial, à frente da Itália; a maior parte da floresta amazónica, considerada o "pulmão do mundo", está em território brasileiro; por fim e talvez fundamentalmente, o país possui uma cultura riquíssima e altamente diversa, que o distingue no conjunto das outras nações.
A vitória de Lula da Silva e o seu retorno à presidência acontece num momento em que a humanidade se vê perante três desafios vitais: a ameaça climática e a necessidade urgente de um novo modelo de desenvolvimento e crescimento fundado na ecologia; o crescimento do autoritarismo política e da extrema direita em todo o mundo, o que levanta a necessidade de aprofundar e radicalizar a discussão sobre a democracia, que, para sê-lo, precisa de ir além do mero, limitado e ambíguo liberalismo político, incorporando os direitos sociais dos cidadãos; e o atual confronto entre o unilateralismo (eurocêntrico e assente na aliança militar EUA/NATO) e o multilateralismo, de cujo desfecho dependerá a verdadeira nova ordem mundial pós-guerra fria.

Lula tocou, de forma direta ou indireta, mas clara, transparente e enfática, nesses três temas. Comprometeu-se com uma política de desmatamento zero na Amazónia e com a transição energética; defendeu a democracia e o republicanismo, associando-os sem tibiezas à necessidade de realizar políticas capazes de assegurar os direitos sociais e económicos dos cidadãos, combatendo o racismo e o machismo estruturais e começando a resgatar a dívida histórica do país com os povos originários, numa linha que vou chamar de "social democracia popular", característica de certas correntes políticas sul-americanas e completamente diferente da anémica "social democracia" europeia, cada vez mais capturada pelo globalismo neoliberal; e afirmou taxativamente estar pronto para manter relações abertas e construtivas com a maior potência mundial, de maneira autónoma e com base num quadro que leve em conta as articulações do Brasil com os demais países da América Latina, da Ásia e da África, tendo mencionado a redinamização dos Brics, sinalizando assim que, entre o unilateralismo e o multilateralismo, ele escolhe este último.
Outro fator que atesta a importância global do Brasil é que se trata do segundo maior país "negro" do mundo, depois da Nigéria, ou seja, é a nação onde existe a maior comunidade descendente de africanos fora de África. Uma aliança estratégica entre o Brasil e África teria um impacto geopolítico inimaginável, pelo que estou curioso em saber como serão as relações afro-brasileira neste terceiro mandato do presidente Lula. Escuso de dizer que tais relações não dependem apenas do Brasil, mas também das lideranças africanas, que precisam de demonstrar não apenas interesse, mas competência para que o continente desempenhe o papel global fulcral que tem condições (um deles a sua juventude) de desempenhar a médio prazo.

Uma derradeira nota para indagar o eventual papel do Brasil, novamente com Lula como presidente, na CPLP. A verdade é que, embora o Brasil seja a maior nação de língua portuguesa, as elites políticas, económicas e intelectuais brasileiras, fortemente eurocêntricas, não dão a devida importância a essa comunidade, limitando-se, na melhor das hipóteses, a confundi-la com as suas relações com Portugal (a atual imigração brasileira em Portugal certamente contribui para isso). Tenho de dizer, aliás, que não sou nada otimista em relação à CPLP. Isso pode ser tema para outra coluna.


Escritor e jornalista angolano
Diretor da revista África 21

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