O bê-á-bá ou a literacia em saúde mental

"O meu filho é obsessivo", "a minha mulher é bipolar" ou "o meu marido é esquizofrénico" são alguns exemplos de expressões que ouvimos frequentemente, quase sempre com uma forte conotação negativa e sem qualquer diagnóstico real subjacente, atribuindo à doença mental um peso e um estigma que urge desmontar.

Em Portugal, os problemas de saúde psicológica afetam um em cada cinco portugueses, sendo que a pandemia contribuiu, e continua a contribuir, para um aumento de diversas dificuldades, como sejam os quadros ansiosos e depressivos, de mãos dadas com diferentes riscos comportamentais (p. ex., hábitos alimentares desajustados, consumo excessivo de álcool e tabaco, obesidade e sedentarismo). Estes comportamentos, por sua vez, surgem relacionados com um aumento de mortes. Também no contexto de problemas de saúde psicológica (em especial, a depressão), pelo menos três pessoas suicidam-se por dia no nosso país. Entre os mais jovens (15 aos 34 anos), o suicídio é mesmo a segunda causa de morte em todo o mundo.

Falamos, portanto, de uma realidade que está muito presente na nossa vida. Arriscar-me-ia mesmo a dizer que todos nós, sem exceção, conhecemos alguém que sofre no contexto de um problema de saúde psicológica. Talvez vá um pouco mais longe e diga ainda que todos nós, sem exceção, já sentimos algumas dificuldades relacionadas com a nossa saúde mental.

É verdade que a estigmatização associada aos problemas de saúde psicológica tem vindo a diminuir ao longo das ultimas décadas e, como dizia recentemente o Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, não há nenhum serviço de Psicologia que não abra e que não fique de imediato com uma lista de espera. Mas é igualmente verdade que continuamos a usar a saúde mental como arma de arremesso, motivo de gozo ou mesmo de exclusão. Não nos passaria jamais pela cabeça dizer que "o meu filho é um diabético", "a minha mulher é cancerosa" ou "o meu marido é um anémico".

Abordemos então este tema de uma forma clara, sem vergonha ou tabus. O que equivale a falar da importância da literacia em saúde mental, que tem sido e continua a ser amplamente negligenciada. A literacia em saúde mental relaciona-se com os conhecimentos e as crenças sobre os problemas de saúde mental, que contribuem para o seu reconhecimento, gestão e prevenção. Entre outras, esta literacia inclui a capacidade em reconhecer determinadas perturbações, em desenvolver estratégias de auto-cuidado e em saber procurar ajuda especializada. Diferentes estratégias contribuem para o aumento da literacia em saúde mental, com especial destaque para as campanhas de sensibilização e informação dirigidas a toda a população, e para a intervenção em contexto educativo. Mesmo com crianças mais novas, de uma forma lúdica e descontraída, é possível ensinar o bê-á-bá da saúde mental, para que cresçam mais informados e esclarecidos, sem falsas crenças que perpetuem comportamentos desadequados.


Por isso, da próxima vez que ouvir alguém dizer que a pessoa X é borderline, tarado sexual ou tem POC (perturbação obsessivo-compulsiva), conteste e contribua para que os problemas de saúde psicológica sejam abordados com o rigor e a seriedade que merece.


Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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