O Ano Novo de Emmanuel Macron

Com este primeiro dia do novo ano começam os seis meses de presidência francesa da União Europeia. Será a altura de fazer votos de renovação ou de esperar mais do mesmo? Para Emmanuel Macron, este deverá ser um período excecional, a vários títulos. Nos próximos meses, duas das suas grandes ambições estarão em jogo: ser reeleito presidente da República Francesa e marcar o futuro da União Europeia. Neste momento, nenhuma delas está garantida.

A mais fácil de realizar será talvez a sua reeleição. A corrida presidencial poderá ter oito candidatos, mas o que conta é a passagem à segunda volta, e aí, o que ela ditará. Nos últimos anos, teve-se como garantido que a final seria entre Macron e Marine Le Pen, uma espécie de repetição do que ocorreu há cinco anos. E que os franceses diriam uma vez mais não à candidata da extrema-direita, o que tornaria a vitória de Macron quase certa.

Mas a política, numa sociedade socialmente tão fragmentada como a francesa, tem as suas surpresas. Nos últimos meses, Éric Zemmour, um comentador de televisão com opiniões xenófobas e nacionalistas radicais, e que tem feito do combate à imigração e à influência muçulmanas o seu principal cavalo de batalha, veio baralhar o jogo. A sua entrada em campo reduziu as hipóteses de Marine Le Pen. E embora a direita radical represente, no seu total, à volta de 30% da opinião política, a previsão atual é que nem Le Pen nem Zemmour consigam aparecer na segunda volta das presidenciais. Neutralizar-se-ão mutuamente.

A acontecer, isso será uma boa nova para a França, mas uma má notícia para Macron. Porém, pior ainda para ele é o aparecimento de Valérie Pécresse como candidata do centro-direita, por escolha do partido Les Républicains, um agrupamento de conservadores de vários tons que tem as suas raízes no gaullismo de outrora. Pécresse, antiga ministra de Nicolas Sarkozy e atualmente presidente da região que engloba Paris, atrai o mesmo tipo de eleitorado que Macron. É uma mulher que tem uma imagem moderna, elegante e calma, que passa relativamente bem nas televisões.

Como a esquerda não tem peso na França de hoje - a candidata socialista, Anne Hidalgo, é creditada pelas sondagens mais recentes com apenas 2% a 3% das intenções de voto - a grande disputa vai ocorrer ao centro bem como na conquista, na segunda volta, de uma parte dos eleitores da ultradireita.

É num contexto assim que Macron vai iniciar a liderança da UE. O tema forte que propõe para o período da presidência francesa é o reforço da soberania europeia. Na sua visão, esse objetivo deve assentar, prioritariamente, no fortalecimento do controlo fronteiriço do espaço Schengen. Ao frisar esta questão, visa matar dois coelhos com uma só cajadada: responde às preocupações de líderes como Viktor Orbán - com quem manteve conversações recentemente em Budapeste; e capta votos à direita e mesmo à extrema-direita, no que respeita ao eleitorado do seu país. Esses eleitores são contra tudo o que possa parecer facilitismo em matéria migratória.

A segunda dimensão, diz-nos, assentaria naquilo que designa por "uma Europa da defesa", algo apontado como o outro pilar fundamental da soberania europeia. Um tema aliás frequentemente mencionado pelo presidente francês, mas que continua a ser uma questão vaga e que divide os Estados membros. Baseia-se, além disso, numa noção de projeção de poder internacional antiquada, assente essencialmente na força militar. Ora, no caso europeu o que poderá efetivamente contar é a vitalidade e a modernidade da sua economia e a qualidade da sua democracia, combinadas com uma diplomacia de paz, cooperação e de mediação de conflitos. Ao dizer isto não quero menorizar a função das forças armadas europeias. Mas essas têm, acima de tudo, de tratar de recentrar o seu papel estratégico e operacional no seio da NATO. É sobretudo aí que começa a defesa da Europa, consolidando, no interior da organização, um espaço mais amplo de autonomia de decisão para os Estados membros europeus.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral adjunto da ONU

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