O Ano do Porco

Os protestos covid na China baralharam um pouco as cabecitas falantes da rádio e da tv. Uns louvam a bondade da ditadura pequinesa, outros aplaudem manifestações anticonfinamentos. Precisam de ajuda. Urgente.

Vamos aos primeiros. Há quem defenda - e repita em directo sem se escangalhar a rir - que o governo chinês encontra-se perante uma difícil escolha: ou retira as restrições covid dando mais liberdade ao povo, ou mantém-as para o proteger. Mas quem acredita que existe tal dilema numa ditadura cruel? Acham que o partido comunista está preocupado com a saúde dos cidadãos?

Fazem fé na tirania magnânima, piedosa, de uma bondade infinita? Crêem que o sino-regime protege o incalculável valor da existência humana e tudo o que quer é salvar vidas, mesmo que tenha que ser à bruta, triturando gentes? Há uma ditadura fofinha? Branqueiam-na?! Volta, Jerónimo. Estás perdoado. Enfim, devem ser os mesmos que crêem que os números chineses têm um centímetro de credibilidade. Pode o jornalismo à segunda, quarta e sexta gritar que Pequim é uma autocracia carnívora é às terças, quintas e sábados papar a sua propaganda, estatísticas inclusive? Pode, claro. Até porque aos domingos, o ocidente, horrorizado com as condições no Qatar e na Rússia, deslocaliza fábricas da Europa para o país de Xi Jinping. Portanto pode sim, pode tudo pois a prioridade não é as pessoas nem sequer o belo, o bem, o bom ou o justo. A prioridade é safar a narrativa (ou manter a face dos políticos), alimentando a patranha das medidas salvadoras ou a das sanções recompensadoras.

No polo oposto, com outro contorcionismo, mas o mesmíssimo objectivo, maneia-se um elefantíaco ror de hipócritas que hoje louvam os protestos anti covid zero asiáticos mas que ontem queriam condenar os compatriotas não vacinados e outros europeus a não poderem comprar comida ou a ficarem em "campos de isolamento". Em solo nacional, andaram quase três anos a babar e a louvar medidas drásticas, estéreis e estapafúrdias. Quem ousasse formular uma dúvida - quanto mais uma crítica - logo era insultado e ostracizado - negacionista, conspiracionista... agora os chineses que se rebelam são corajosos, bravos. Os que em solo ocidental ousaram levantar grimpa eram extremistas racistas. Os que em solo asiático levantam a folha em branco são intrépidos lutadores.
Claro que esta hipocrisia de obesidade mórbida não é só nacional. Veja-se, a título de exemplo, Trudeau. Em fevereiro: "Ao juntarem-se aos protestos porque cansados da covid, estão a violar a lei". Agora, em novembro: "Toda a gente na China deveria ter direito a protestar".

Ora, estes aprendizes de feiticeiro condenam a postura da China e alegam que não se compara ao que cá sucedeu. Mas estão a falar de quê? Atrasos de anos nas aprendizagens, prisões domiciliárias, negócios arruinados, violações sistemáticas da Constituição, pessoas detidas ilegalmente por comerem gomas ou sandes, pais que ficaram sem filhos, consultas oncológicas irremediavelmente adiadas, milhares de mortos em excesso nas suas mãos manchadas de sangue? Ah, mas "na China ainda é pior" é consolo para quem? Para o europeu iluminista? Para as elites privilegiadas? Para a perversão constitucional em curso? Para os todos eles, os direitos humanos nos países estrangeiros são refresco. Saúde.


Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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