Composta, na sua maioria, por recalcados, por ignorantes, por racistas, por intolerantes, por falsos moralistas, por tarados por armas, por fanáticos que tomam o nome de Deus em vão e por patriotas que odeiam metade dos compatriotas, a seita bolsonarista, como qualquer outra seita, não desperta inveja nenhuma a quem a acompanha, in loco, diariamente, sem folgas, desde há pelo menos quatro anos..A não ser por um motivo: o seu imparável amor-próprio..Nada a abala. Na imprensa, por exemplo: mesmo com The New York Times, talvez o maior jornal do mundo, o The Washington Post, o El País, a BBC, o Le Monde ou o The Guardian a sugerirem, nalguns casos, ou a assumirem sem meias palavras, noutros, o apoio a Lula da Silva, eles questionam-se..A Time fez capa com Lula? E daí, respondem. A Economist, bíblia de liberais como o ministro bolsonarista da Economia Paulo Guedes, prefere o candidato do PT? Problema deles. E a Nature, principal publicação científica do mundo, abre a exceção de aconselhar voto? Queremos lá saber..Até os órgãos de comunicação social tradicionais locais, nas mãos de clãs milionários, como os Marinho, os Mesquita ou os Frias, insuspeitos, portanto, de serem perigosos comunistas, explicaram que Lula, com os seus defeitos, é muito menos prejudicial ao país, que Bolsonaro. São pagos pelo PT, reagem!.Informação fidedigna, os bolsonaristas recebem pelo WhatsApp via memes editados por Carlos Bolsonaro - sim, porque nem a Economist, nem a Nature publicaram nada, como o Carlos, sobre Lula querer instituir casas de banho unissexo Brasil adentro. Na música, génios da raça, como Chico, Gil, Bituca ou Caetano, estarem todos do mesmo lado não os impressiona..Do outro lado, estão os ícones dos cafonas "sertanejo universitário" e "gospelnejo" e um cantor chamado Latino, que, no dia seguinte às eleições, desabafou nos seguintes termos: "Assistindo o Lula na TV é como assistir um dejavour (sic) do fracasso. Que Deus tenha piedade dos desenformados (sic)". Está em forma, o Latino..Na política, os chefes de Estado de França, Alemanha, Espanha, Portugal, EUA e da maioria da América Latina apressaram-se a celebrar o recém-eleito, a quem já receberam no passado e prometem receber no futuro..Nas vésperas, Bolsonaro fora animado por Orbán. E por Trump, o líder da célula norte-americana da seita e, por isso, ídolo aqui a sul..Na ciência, durante a pandemia, Lula esteve em sintonia com a Organização Mundial de Saúde, os maiores laboratórios do mundo, o Butantã e a Fiocruz, duas instituições brasileiras de excelência, e todos os prémios Nobel..Bolsonaro aconselhou-se com Osmar Terra, para quem a covid não mataria mais do que a gripe sazonal, e Eduardo Pazuello, o paraquedista que, ao cair de paraquedas no Ministério da Saúde, multiplicou a tragédia..Nem assim, o bolsonarismo, que inclui nos estados mais graves, terraplanistas e negacionistas da ida à Lua, se tocou..Mas, o momento mais revelador do imparável amor-próprio foi o rescaldo eleitoral. Depois de quatro anos de demonstrações de fidelidade canina, 58 milhões foram às urnas votar em Bolsonaro. Derrotada, essa multidão em prantos teve de esperar 45 horas de silêncio cobarde e infantil por um agradecimento, um conforto, um alento do líder..Isso derrubaria a autoestima de um leão. Mas do gado, não..Jornalista, correspondente em São Paulo