O aeroporto urgente do líder da oposição

Ninguém disse mais vezes a palavra "urgente" sobre o aeroporto de Lisboa do que o Presidente Marcelo, o grande apoiante dos empresários do turismo. Não sei se, por causa disso mesmo, Pedro Nuno Santos sentiu as costas quentes quando avançou e entalou António Costa, protegido igualmente pelo PCP e Bloco, que querem Alcochete. Em resumo: quem é contra Alcochete? Talvez Costa e os seus sucessivos ministros das Finanças. Eles sabem quão impagável seria meter Portugal nessa aventura. E então atiram-nos para o Montijo, cuja conta é da Vinci, para lavar as mãos do problema - mesmo que fazer aquele aeroporto temporário signifique colocar a estrutura a mais de dois metros da sua cota inicial, um aterro digno das loucuras do Dubai. E, claro, destruir toda aquela zona do estuário do Tejo.

É verdade que adiamos há 50 anos uma decisão sobre o aeroporto de Lisboa. Mas a razão principal é o dinheiro. Alguém ainda se lembra de que, depois do 25 de Abril, já tivemos três intervenções do Fundo Monetário Internacional? Entretanto, com o dinheiro que surgiu da União Europeia, fizemos hospitais, escolas, tribunais, estradas, pontes, saneamento, etc.. Chegados aqui, e estando em cima do verão mais louco do turismo, queremos decidir sob pressão. Só pode correr mal.

Se queremos atuar depressa e sem tantos custos, ativemos o aeroporto de Beja em 2023. Alguém já falou com as low-cost? Não é possível montar-se uma operação ferroviária ou de autocarros que ligue Beja a Lisboa em duas horas? Já imaginaram quantas noites de turismo alternativo se venderiam no Alentejo, além de novas oportunidades numa maravilhosa região do país?

Há igualmente uma Base Aérea em Monte Real (potencialmente transferível para Tancos), que nos legaria uma pista, área para construir um hangar e uma ótima localização. Não queremos porquê? Alguém já foi a França, Espanha, Noruega, etc., ver como é possível fazer-se em pouco tempo um pequeno aeroporto descentralizado? Monte Real está a hora e meia de Lisboa. É uma viagem igual a ir de uma ponta de Londres até Heathrow de metro. Além disso, a alta velocidade vai passar em Leiria, ali ao lado.

Lisboa: o plano de reconversão retira dali a Base Aérea de Figo Maduro e o apoio aeronáutico. Com as prometidas novas obras da ANA, o edifício do aeroporto teria muito mais espaço para check-in, mais zona de bagagens e cabinas do SEF. Porque não?

A realidade física da Portela impõe apenas dois constrangimentos inalteráveis: só há espaço para uma pista, portanto não podemos ter todos os voos que quisermos. Mas a questão é: quantos mais voos queremos em Lisboa? Além disso, a segurança das aterragens: se formos pela teoria das probabilidade e urgências, então prolonguemos a pista da Madeira, essa, sim, o maior problema de aviação português, numa região ultradependente do turismo.

Por fim: porque queremos mais turistas em Lisboa? Quantos mais? Para criar a xenofobia que acaba com a segurança? Para ter ainda mais e mais pressão sobre quem lá vive por surgirem mais alojamentos locais e hotéis, dado um infinito crescimento da procura? Além disso, porque dispomos, com esta arrogância, do ecossistema de Alcochete e da Margem Sul? E o absurdo: pode gastar-se 1600 milhões no Montijo para que ele funcione por nove anos?

Lisboa acolheu a Conferência dos Oceanos e nada ficou sobre a crise do planeta. A Portela está esgotada, repetem. É o contrário.

A verdadeira Lisboa, que dá razão de ser a tudo isto, é que está perto do limite. Não a destruam mais, sob pena de perdermos tudo.

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