O admirável mundo novo, segundo Trump

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Em pouco mais de um ano, Donald Trump alterou profundamente as regras das relações internacionais, empurrando a diplomacia para uma nova era dominada pelo acesso a recursos, pela gestão de risco e por uma lógica económica transacional. Alianças históricas baseadas em valores comuns deixaram de garantir relações comerciais estáveis: no hard feelings — nada é pessoal, nem permanente. A ofensiva tarifária norte-americana de 2025 atingiu até parceiros tradicionais como a União Europeia e o Canadá. A incursão na Venezuela, onde a dimensão económica pesa tanto quanto a militar, e a intenção de adquirir a Gronelândia à Dinamarca — aliada histórica e membro da NATO — confirmam essa viragem. Entrámos, assim, numa nova fase da política externa dos Estados Unidos, que combina coerção económica e ação estratégica direta, redesenhando as regras do comércio global — uma realidade que a Europa não pode ignorar.

Uma primeira conclusão importante é que esta nova política externa norte-americana sugere uma rutura clara com a lógica pós-Guerra Fria, onde valores partilhados e alianças ideológicas sustentavam relações comerciais e estratégicas. A substituição dessa lógica por uma abordagem transacional levanta a questão central: estamos perante o princípio do colapso definitivo da diplomacia tradicional em favor de uma geopolítica de interesses de curto prazo? E que impacto isso tem na previsibilidade do comércio internacional? E como é que os mercados financeiros internacionais vão incorporar estas novas dinâmicas – que são mais imprevisíveis.

Uma segunda inferência prende-se com o efeito contágio e de risco financeiro associado às relações internacionais. A ofensiva tarifária, a intervenção na Venezuela e o interesse na Gronelândia apontam para uma instrumentalização mais explícita do comércio e dos recursos naturais como extensões da segurança nacional. Neste caso são Estados Unidos, mas também a China e Rússia já eram exemplos em certa medida desta filosofia. O efeito contágio esperado deste novo mundo leva a refletir sobre até onde é que as medidas económicas coercivas substituem ou complementam a ação militar tradicional, e como isso altera decisões de investimento, cadeias de abastecimento e a autonomia estratégica de outras potências, em particular a Europa.

Por fim, mas não menos importante, o dilema europeu. Face a um novo paradigma em que alianças já não garantem proteção económica, a Europa confronta-se com uma escolha estrutural: adaptar-se a uma lógica mais dura e pragmática, tentar preservar a ordem multilateral existente ou arriscar a perda de relevância geopolítica. Este tópico permite discutir se a União Europeia tem instrumentos políticos, económicos e estratégicos para responder a uma América mais assertiva — ou se continuará vulnerável a decisões unilaterais. E Portugal, não pode, nem deve alhear-se deste debate. Para países como o nosso em que os modelos normativos têm sido um suporte, esta mudança coloca um desafio existencial adicional: insistir num modelo em retração ou a adaptação a um mundo onde valores já não serão garantia de proteção nem de acesso privilegiado aos mercados.

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