Nós, ‘Os Maias’: a decadência da nação

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“A nossa fatalidade é a nossa História”

Antero de Quental

Foi José de Almeida Moura (1941), ensaísta, discípulo de António Salgado Júnior e aluno de David Mourão-Ferreira, nos anos de 1960, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, quem, em 1984, no número 14 dos Cadernos de Literatura (INIC), escreveu um dos mais importantes ensaios sobre a obra-prima de Eça de Queirós, Os Maias, publicado em 1888: Os Maias: ensaio alegórico sobre a decadência da nação. Estamos em 2026 e o Ministério da Educação prepara-se para introduzir uma nova reforma curricular na expectativa de, na Educação, haver mais exigência, mais rigor; no fundo: mais e melhor estudo.

É precisamente a questão educativa a que anima a ideologia e a tese deste romance que deve continuar a ser lido em contexto escolar. Leitura essa que deveria assentar em quatro ou cinco pontos nodais do romanesco (os capítulos I a III, contemplando a reconstituição do passado familiar e o ritmo da novela; o capítulo dedicado ao Hotel Central, onde se opõem as visões de mundo romântica e realista e, para se compreender as razões do desfecho trágico, os penúltimo e antepenúltimo capítulos, o XVII e o XVIII). É nesses que vemos confirmar-se uma das teses de Eça: “Em Portugal nada muda, só a moda.” É nesses que a leitura alegórico-simbólica à luz do conceito de catábase melhor se elaboram: Carlos, dez anos depois, revisitando o Ramalhete, cristalizou numa forma monstruosa: “a do homem rico que vive bem” e que, inútil, não se arrepende do seu incestuoso episódio fatal, que é, propõe José de Almeida Moura, uma relação contranatura, tal qual, historicamente, a relação de Portugal com as colónias (e Maria Eduarda era a “filha da negreira”, lembre-se). Eça, através de Carlos, conclui que Portugal, nele simbolizado, falhou na vida: “E aqui tens tu, meu Ega (…) dez anos passaram, e aqui estou outra vez.” Carlos, símbolo do Portugal de 1870, como Pedro o Portugal da Regeneração, e Afonso o país de 1820, são figurações de um país decadente, ou melhor, de um país cujas elites - atoladas no luxo corruptor - desconhecem o país real. Carlos é o emblema dessa forma alienada de viver: rico e diletante, é um dandy, vítima do meio, do momento e da hereditariedade: é um Maia, com “olhos árabes” e tendo nas veias o “romantismo torpe” da sua geração, não pode escapar à filosofia final: Paris é o único lugar congénere “com o seu tipo definitivo” - uma espécie de barão, tal como o Carlos de Garrett - passeios a cavalo, almoços em bons restaurantes, florete e “uma volta pelo boulevard”; ida ao teatro, de quando em vez; soirée à noite “e, através do ano, mulheres, as corridas, um certo interesse pela ciência, o bricabraque, e uma pouca de blague.” (p.712).

"Mas não só Carlos representa  a decadência  de Portugal. Também Eusébio, vítima  da educação, ‘abafado  em mantas’, refém da Titi e da mamã, espelha certos aspectos da nossa psicologia.”
"Mas não só Carlos representa a decadência de Portugal. Também Eusébio, vítima da educação, ‘abafado em mantas’, refém da Titi e da mamã, espelha certos aspectos da nossa psicologia.”D.R.

Mas não só Carlos representa a decadência de Portugal. Também Eusébio, vítima da educação, “abafado em mantas”, refém da Titi e da mamã, espelha certos aspectos da nossa psicologia. Escreve Almeida Moura: “A caricatura de Eusebiozinho pode espelhar a que o escritor faz da educação escolar de que foi vítima (…)” (p.12). Vale a pena transcrever o trecho de Eça: “Há 40 anos, desde a Patuleia, Portugal está curvado sobre a carteira da escola, bem aplicado, com a ponta da língua de fora, fazendo a sua civilização, como um laborioso tema, que ele vai vertendo de um largo traslado aberto defronte - que é a França. Quem dependurou ali o traslado para que Portugal copiasse, com finos e grossos? Talvez os homens de 1820; talvez os românticos da Regeneração.” (in Cartas e Outros Escritos, p. 323.). É ainda José de Almeida Moura quem, no mesmo estudo de 1984, reeditado em 2000 pela extinta editora escola, a Lisboa Editora, chama a atenção da anagnórise e o seu processo: “Verificamos que a personagem identificadora de Maria Eduarda no país se confunde pelo nome o topónimo do berço da nacionalidade.” De facto, Guimarães é o portador de um “cofre”, espécie de “caixa de charutos”

(…). Nessa “caixita”, Maria Monforte teria depositado a identificação da filha. Ora, como se sabe, em Os Maias o charuto é atributo burguês. Fumados os charutos, o estranho cofre serve para resolver um caso gravíssimo. O cofre é entregue somente no Pelourinho! Maria Monforte, filha de negreiro, foi raptada por um italiano. Quem traz a prostituída Maria Eduarda à presença de Carlos é um natural do Brasil, independente desde 22, mais ou menos o ano de nascimento do pai de Maria Eduarda. Historicamente, quem desvia os portugueses do saber e do proceder a partir experiência, terá sido o carácter livresco do Renascimento italiano, criador dos “doutos varões” de quem Camões ironiza, factor a que se deve associar a determinante jesuítica do Concílio de Trento: “Dom João II nascia italianizado com os vícios e virtudes da cultura da Renascença (…). O Jesuitismo, introduzindo-se capciosamente na cultura humanista, racionalista, da Renascença latina, perverteu-a em Portugal e fora dele, roendo-a”, citando Oliveira Martins.

As coordenadas de análise que lemos nesse ensaio do professor que leccionou quer no Ensino Secundário, quer no Ensino Superior são essenciais para quem queira entender este romance do realismo, assente em Taine e na tragédia grega - Sófocles, desde logo. O que aprendemos lendo o mesmo professor num outro ensaio essencial sobre Portugal - porque sobre Garrett e o seu Viagens na Minha Terra (conteúdo excluído do Ensino numa das reformas curriculares, nos anos de 1990…) - é que, na senda de outros grandes estudiosos da nossa Cultura e Literatura, os maiores intérpretes deste país têm sido os escritores, os poetas. Olhando para a obra de Eça de Queirós, Os Maias e outros livros desse projecto de ler o “Portugal seu contemporâneo”, ideado desde inícios da década de 1870, o que concluímos é que a tese queirosiana se mantém inalterado: “Carlos falha na vida não por causa, mas apesar da educação”. Em 2026, olhando à nossa volta, importa vincar o óbvio: eliminar este romance da nova reforma curricular seria trair as gerações mais novas que, mais do que nunca, devem conhecer as ideias desse discípulo de Zola e do “romance experimental”, do Eça confrade de Antero de Quental, e que plasmou em Os Maias as teses anterianas das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Para que conste.

Professor, poeta e crítico literário

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico.

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