Novo desenvolvimento nas relações israelo-russas

A votação recente na ONU sobre a suspensão da participação russa no Conselho de Direitos Humanos deu ao governo russo uma lista clara dos países que não podem mais reivindicar sua posição "neutra" em relação à guerra na Ucrânia. Manter boas relações tanto com a Ucrânia (e seus apoiantes ocidentais) como com a Rússia já não é uma opção para vários países e um deles é Israel.

Ao mesmo tempo, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Yair Lapid, fez uma declaração condenando a Rússia pelas atrocidades na Ucrânia, o que não foi bem recebido em Moscovo. A resposta foi forte e Israel foi acusado de tentar desviar a atenção do mundo, condenando a Rússia, da longa ocupação dos territórios palestinos e do tratamento dado ao povo palestino. Esta é a acusação mais forte vinda de Moscovo, mostrando claramente a sua decisão de deixar de tratar seriamente as tentativas israelitas de mediar a guerra russo-ucraniana. Além disso, a Rússia está a reavivar a sua reivindicação pela propriedade da Catedral da Santíssima Trindade em Jerusalém, o que é uma longa disputa legal (e política) entre Moscovo e Jerusalém.

Esta resposta é um sinal de que a política israelita de manter as portas abertas para ambos os lados, especialmente para a Rússia, ao não apresentar sanções contra este país, está a chegar ao seu inevitável fim.

A dura reação russa veio ao mesmo tempo em que Israel enfrenta críticas do mundo árabe por lidar com os distúrbios no Monte do Templo entrando nas instalações da mesquita de Al Aqsa em busca dos desordeiros. O motivo dessa ação foi o medo de que os palestinos começassem a atirar pedras aos fiéis judeus que rezavam em frente ao Muro das Lamentações, que fica abaixo do Monte do Templo (o mês sagrado muçulmano do Ramadão e a Páscoa judaica são comemorados este ano ao mesmo tempo). É uma prova óbvia do problema básico do atual governo israelita, entre a sua política em relação aos árabes (tem um partido árabe como membro da coligação no governo) e grupos judeus ortodoxos e de direita (que também fazem parte da mesma coligação). A contradição desta situação está a levar este governo à beira do colapso e o novo problema com os russos só vai adicionar mais peso. Aqui deve-se ter em mente a grande população de Israel com origem russa e também a sua influência política.

Não é novidade presenciarem-se situações sem resultado positivo no cenário político israelita, mas de cada vez que isso acontece é mais e mais complicado, em função do número de partidos, e das suas ideologias, representados no Knesset. As suas diferenças tornam-nos parceiros muito instáveis no governo e o apoio sob pressão dos seus membros pode evaporar da noite para o dia. A única questão que pode manter todos juntos é a segurança, mas não se os árabes de Israel estiverem envolvidos nos problemas no Monte do Templo e na mesquita de Al Aqsa.

O que é óbvio agora é que o governo russo não tem intenção de "compreender" aqueles que reivindicam a sua neutralidade e ao mesmo tempo votam contra eles na ONU. Não é preciso apresentar sanções contra Moscovo para se tornar um Estado "hostil", bastam alguns votos nos órgãos internacionais ou declarações oficiais. As coisas estão a tornar-se menos vagas e a margem de manobra é menor a cada dia que passa.

Tem de se escolher um lado, independentemente das consequências.


Antigo embaixador da Sérvia em Portugal e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE

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