Novas incertezas aqui ao lado, no Grande Sahel

Em 1990, o chefe rebelde chadiano Idriss Déby regressou ao país, vindo do Sudão. Dirigia uma coluna de homens armados, composta sobretudo por combatentes originários da sua região natal. Dias depois conquistou o poder em Ndjamena, com o beneplácito de François Mitterrand. O presidente francês sabia de geopolítica. Via o Chade como o nó essencial para os interesses, a influência e a segurança da França e dos seus Estados clientes naquela parte de África. Por isso, era fundamental que fosse controlado por um homem forte, consistente e amigo da França. Déby tinha esse perfil. E os sucessivos presidentes franceses habituaram-se a fechar os olhos às violações sistemáticas dos direitos humanos, à corrupção em alta escala e à tribalização do poder, para não enfraquecer o seu aliado em Ndjamena.

O apoio tornou-se ainda mais sólido quando Déby decidiu que as suas tropas seriam, do lado africano, o braço forte no combate aos diferentes grupos jihadistas que aterrorizam as populações do Sahel. Os seus militares passaram a ser, de longe, os mais bem preparados da região. Mesmo contra o Boko Haram, a capacidade do Chade é bem superior à da Nigéria. A missão da ONU no Mali (MINUSMA) tem uma considerável presença chadiana - 1400 militares, com uma postura mais ofensiva do que a maioria dos restantes capacetes azuis. Além disso, Déby acabara de enviar uma brigada adicional de 1200 homens, no quadro da cooperação militar regional conhecida como G5 Sahel, para a zona das três fronteiras especialmente visada pelos terroristas - o triângulo onde o Mali, o Níger e o Burkina Faso convergem.

As instituições militares dos países da região são estruturalmente fracas e mantidas assim pelos políticos, que têm mais medo de possíveis golpes de Estado do que dos terroristas. De todos os vizinhos, só Déby, formado como oficial em França e endurecido nas campanhas do deserto, era um verdadeiro chefe de guerra. A sua combatividade era lendária. Em 2008, uma fação rebelde chegou às portas do seu palácio. Nicolas Sarkozy propôs-lhe a exfiltração para um exílio dourado. Déby e outros fiéis, alguns deles hoje membros do Conselho Militar de Transição, recusaram, preferiram bater-se até ao fim.

E acabaram por derrotar os assaltantes. Pouco depois, enquanto representante especial da ONU, discuti essa crise com Déby. Recordo três pontos desse encontro. Primeiro, o reconhecimento que as suas tropas não estavam nem organizadas nem equipadas de modo eficaz. Segundo, a decisão de passar a gastar uma boa fatia dos dinheiros do petróleo na transformação dos seus combatentes em militares profissionais. Terceiro, a decisão de procurar um entendimento com o Sudão de Omar al-Bashir, como já o havia feito com a Líbia de Kadhafi, para que territórios vizinhos não fossem utilizados como bases de lançamento de rebeliões. E assim foi. Em finais de 2009, já era nítida a diferença. Desde então, essas capacidades foram sendo consolidadas. A França, os Estados Unidos e outros ocidentais passaram a ver o Chade como a ponta-de-lança contra o terrorismo e o extremismo religioso. As críticas à ditadura e ao nepotismo foram postas no congelador.

Mas nessas terras de instabilidade, a vida dá muitas voltas. Déby fechou o seu ciclo nesta semana, de modo quiçá parecido com o que protagonizara há 30 anos. Só que desta vez a coluna de rebeldes era da tribo ao lado, veio da Líbia e o presidente tombou na linha da frente.

O Chade, a África Central, o Sahel, a França e os europeus presentes na região ficaram mais frágeis.

São várias as questões que se levantam com o desaparecimento de Idriss Déby. O que motivou o presidente Macron a deixá-lo sem o apoio habitual, quando em 2019 havia enviado caças para travar uma rebelião semelhante? Erro de cálculo? Quem está por detrás desta nova rebelião, conhecida como FACT (Frente para a Mudança e a Concórdia no Chade)? Que impacto terá a nova realidade no conflito na República Centro-Africana? Que esperar do G5 Sahel e da luta contra o terrorismo nesta parte de África? Cada uma destas interrogações esconde muitas incertezas e preocupações. O futuro da pobre população do Chade é delas a maior.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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