Notas à margem da Cimeira da NATO

A Suécia e a Finlândia parecem ter aceitado, sem grandes discussões, as exigências impostas por Recep Tayyip Erdogan. A prioridade absoluta, para ambos, era avançar rapidamente com o processo de adesão à NATO.

Pouco antes do anúncio do acordo entre os dois países candidatos e o presidente da Turquia, o prognóstico que prevalecia era que o impasse se iria arrastar por algum tempo, talvez mesmo até às eleições presidenciais turcas, previstas para junho do próximo ano. Erdogan teria a ganhar com a continuação do bloqueio, na frente política interna. A sua recusa seria continuamente propagandeada como uma posição nacionalista, uma demonstração de poder, numa altura em que o povo turco se sente marginalizado pelos ocidentais, em particular pela União Europeia.

Ao levantar a ameaça de veto, momentos antes da abertura oficial da cimeira da NATO de Madrid, Erdogan surpreendeu-nos. Disseram-nos, depois, que isso mostrou a coesão que existe no seio da Aliança Atlântica. Sou dos que não compram essa narrativa. E, uma vez conhecidos os termos do acordou, ficou claro que Erdogan ganhou o braço de ferro.

As cedências suecas e finlandesas levantam vários tipos de preocupações. Menciono duas de seguida, sem falar do desassossego que decorre da submissão a um déspota. E sem esquecer que a chantagem irá continuar, até ao momento da ratificação das adesões pelo parlamento turco.

Primeiro, por mostrarem que existe um enorme receio, no que diz respeito a uma possível agressão vinda de Moscovo. Dito de outra maneira, os nórdicos estão na verdade convencidos que a Rússia de Vladimir Putin representa uma séria ameaça para a paz nessa região do continente europeu.

Segundo, porque o acordo prevê a possibilidade de extradições de militantes curdos e outros refugiados que o autocrata de Ancara tenha na linha de mira. Sabemos que Erdogan não dá qualquer valor aos direitos humanos nem à independência do sistema de justiça no seu país. É aliás uma aberração ter um regime desse tipo à frente do segundo maior país membro da Aliança Atlântica. Mas também é verdade que os regimes - e os ditadores - passam, não são eternos. Pode acontecer que no próximo ano Erdogan perca as eleições e a Turquia volte às práticas democráticas. Então, mais tarde ou mais cedo, uma das reformas a fazer será incluir no tratado da organização a possibilidade de suspensão de um dos membros, enquanto durar uma situação semelhante à que se vive atualmente na Turquia. Hoje, essa possibilidade não existe e bem falta faz.

Para além da aprovação do novo conceito estratégico, o desfecho do que está a acontecer na Ucrânia é que será verdadeiramente transformador. A cimeira de Madrid reconheceu que não se pode deixar a Rússia vencer o conflito que provocou. Nos tempos de hoje, a violação da lei e da ordem internacionais não deve trazer vantagens para o infrator. Já a reunião do G7, uma cimeira algo confusa nas vésperas do encontro de Madrid, havia chegado à mesma conclusão. Mas uma declaração desse tipo só tem valor se for traduzida em ações concretas que impeçam a vitória de Moscovo.

Infelizmente, diria que não estamos no bom caminho. Existe mesmo o risco, se nada mais nem mais urgente se fizer, de assistirmos à progressiva destruição da Ucrânia. A atual dinâmica de guerra de desgaste joga a favor da Rússia, por várias razões. A Rússia tem como trunfos uma economia marcadamente mais forte, meios militares mais vastos e uma filosofia de guerra que se baseia na destruição das infraestruturas e das zonas urbanas, aniquilando modos de vida e criando o terror no seio das populações civis vítimas da agressão.

As democracias europeias não podem ganhar esta batalha vital sem um empenho mais profundo, acelerado e bem explicado aos cidadãos. Ao ritmo atual, a ajuda em armamento não chegará a tempo, nem será suficiente. Mais ainda: só, a Ucrânia não terá a força necessária para repor a sua soberania. Veremos, nos próximos tempos, se a cimeira de Madrid teve em conta estas evidências, ao prometer à Ucrânia o apoio firme e continuado dos membros da Aliança Atlântica.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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