Nós, os burgueses do teletrabalho

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Talvez desde o fordismo não tenhamos assistido nas nossas sociedades a uma tão radical mudança das condições de trabalho, ao se abolir a distinção entre o espaço público e o privado na vida laboral e se reatarem as tradições do trabalho em casa, como as antigas fiandeiras ou os operários que cultivavam fora da fábrica os seus pedaços de terra. Se o trabalho manual mais básico, a agricultura e a indústria e algum trabalho mais qualificado (saúde, por exemplo) não puderam, pela sua natureza, ser relegados ao espaço doméstico, a verdade é que a pandemia revelou as enormes potencialidades deste modo de trabalho, tornado possível pelo extraordinário avanço tecnológico dos meios digitais.

Não, não são só burgueses a gozar as suas mordomias à beira de um computador. São professores que dão as suas aulas, médicos que prestam as suas teleconsultas, funcionários de secretaria que cumprem as suas tarefas a partir do computador caseiro, precários que nos call centers atendem os clientes das empresas. Se fizermos um inquérito às suas condições de trabalho, talvez tenhamos a surpresa de não encontrar burgueses tão satisfeitos como aparecem na mente de alguns economistas.

Neste momento da minha vida profissional, ao fim de 45 anos de serviço público, presto apenas modestos serviços de consultadoria. Tenho, portanto, reuniões por videoconferência. Essas reuniões começam sempre, como as velhas sessões de espiritismo dos séculos passados, por nos assegurarmos da presença efetiva dos participantes na rede, através de sucessivas invocações a imagens que deslizam pela tela, às vezes focadas, às vezes desfocadas, depois sem som, a seguir com todas as vozes a sobreporem-se furiosamente, depois com os pequenos microfones por debaixo dos rostos a apagarem-se e uma voz finalmente a emergir. Podemos, é verdade, desligar a câmara e ir à nossa vida, enquanto ouvimos as vozes reunidas e tomar parte na conversa só quando é a nossa vez. Mas nem a reunião é mais produtiva nem a nossa intimidade mais preservada assim.

Passadas que foram essas reuniões, uma riquíssima vida cultural em streaming está ao alcance do meu computador. Mas ir ao teatro ou ao concerto por esta via oferece-me algo mais aliciante do que tudo aquilo que está ao meu dispor nas múltiplas plataformas a que tenho acesso? Se a presença real é dispensável, então toda a memória e toda a criação do mundo se nos oferece neste extraordinário e infinito museu imaginário que a tecnologia hoje proporciona - e como escolher? Se estar fisicamente na sala de concerto é irrelevante, então porquê preferir a Gulbenkian à Mezzo? Se tenho acesso ao Teatro D. Maria e ao Théâtre de la Ville, porquê escolher qualquer um deles? Faz-nos falta sem dúvida a presença física, porque a obra de arte reproduzida tecnicamente já é do nosso mundo há muito tempo.

Num festival de poesia virtual, não posso passear entre as sessões, conviver com outros poetas e leitores de poesia, saltar sessões, vagabundear: tenho, diante do meu computador, de assistir a tudo do princípio ao fim até ver passar o que me interessa. Numa reunião de trabalho não posso ter apartes com os outros participantes, gestos de cumplicidade, momentos rápidos de entendimento sem palavras - e como isso importa em qualquer trabalho coletivo, em qualquer negociação!

O que se torna dominante, neste modo de trabalhar como neste modo de cultura e de lazer, é a crescente atomização, a destruição dos laços entre as pessoas, o desfazer de cumplicidades e afetos, a erosão da solidariedade, de tudo que nos faz humanos e nos torna capazes de resistir e de criar. É um sofisticado e muito eficaz modo de dominação e de exploração.

Mas afinal quem são os burgueses do teletrabalho?

Diplomata e escritor

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