No país pedófilo

A maioria das vítimas de pedofilia fica em silêncio. A maioria dos abusadores estimula esse mutismo. Eis um crime que leveda calado. Já o PR não consegue fechar a boca e, questionado sobre o caso do sacerdote que abusou de uma criança e gozou do silenciador dos cardeais patriarcas de Lisboa, declarou: "O juízo que formulo sobre D. Policarpo e D. Clemente é o de que não vejo em nenhum deles nenhuma razão para considerar que pudessem ter querido ocultar da justiça a prática de um crime." Calado era um poeta, enquanto tais figuras de alto coturno da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) falantes teriam sido humanos decentes, até porque não apenas não denunciaram à polícia, como permitiram que o dito pedófilo dirigisse uma associação de acolhimento de miúdos. Ou seja, consentiram o trajecto típico deste perfil criminal, garantindo acesso simplificado a menores para facilmente os estuprar e destruir, o que, provavelmente, se verificou, até porque está estudada a forte tendência de reincidência nestes criminosos, sobretudo quando não são tratados. De resto, esta conduta coincide com o que já se sabe dos abusos na ICAR portuguesa - mesmo quando as queixas se empilhavam, a maior parte dos violadores foi apenas recolocada noutras paróquias, nas quais, provavelmente, continuaram a perpetrar actos repulsivos.

Mudos, Policarpo e Clemente foram cúmplices de um pedófilo e garantiram-lhe impunidade. Logorreico, Marcelo foi colaboracionista dos cúmplices de pedófilos. Todos reviolentaram as vítimas. Eis um esquema piramidal onde a cúpula se defende. Já vimos este filme. Aliás, numa recente entrevista, o próprio Pedro Stretch (médico das vítimas da Casa Pia e coordenador da Comissão da ICAR), quando o jornalista lhe perguntou se acha que as classes vão continuar a proteger-se, explicou: "Acho que também pode acontecer. [...] Os processos são sempre os mesmos. Na Casa Pia, começaram por desacreditar as vítimas, depois a equipa e os investigadores. Tentaram desmantelar tudo aquilo que era uma evidência [...]. Viu-se que o poder judicial não é autónomo do poder político e ainda não é."

Aprendemos algo desde então? Devíamos ter interiorizado que estes branqueamentos não podem ser tolerados, obnubilam a função das autoridades e impedem a urgente protecção das vítimas. Certo é que, depois disto, o cardeal patriarca já se deveria ter retirado. E não é o único.

A Igreja gosta muito dos segredo dos deuses, mas depois de séculos a escutarem-se relatos de sevícias em colégios católicos e seminários, torturas sexuais dentro das próprias igrejas e conventos, só nestas semanas ficámos a conhecer a escravatura das noviças de Requião, o caso do padre Heliodoro Nunes, da diocese de Évora (que escondeu os abusos sexuais do chefe dos acólitos), e agora esta situação com os bispos da capital. Perante este horizonte, não podemos ter a autoridade máxima do Estado a alinhar pelo mesmo diapasão de Manuel Linda (que há poucos meses afirmava que só surgem denúncias porque estes tempos são puritanos) ou então o PR a responder - tal como a batina eborense - pelo crime de abuso sexual de crianças por omissão, pois não? Ou fazemos do país pedófilo um segredo de Estado?

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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