No Compasso do Regresso 

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Fugindo ao registo habitual, esta semana deixo-vos um convite: uma viagem guiada pela geografia da memória, com os olhos postos no presente e o coração projetado no futuro. 

Com a chegada do verão, o céu torna-se mais azul e as noites revelam o seu mapa de estrelas. Regra geral, é por essa altura que quem tem condições para isso tira férias. A azáfama das malas, dos itinerários, do tetris na mala do carro. Um ritual repetido, onde o corpo se desloca… e a mente também. As conversas descontraídas ao fim do dia, muitas vezes lançadas pela cunhada, dão início à tal viagem. Quanto tempo dura uma memória? Quanta vida cabe no Tempo? 

O Tempo, essa estranha entidade, entra na dança e ouve-se: 
“O Tempo, esse arquiteto…”, quando o tema é a metamorfose das rochas da arriba, que tanto apaixonam a minha mãe. 

Memórias de infância misturam-se com momentos recentes. A viagem até ao Algarve, abrindo as janelas da 4L, onde o cheiro a esteva chegava antes da paisagem! Ou o infindável trajeto do Porto a Silgueiros, onde os primos nos esperavam (em particular os olhos azuis do primo Paulo) e de como a avó Zira já não tinha adivinhas para nos distrair das curvas na estrada nacional! 

O tempo que agora nos damos para olhar pela janela do quarto e ficar à espera, só para ver onde o vento leva os abelharucos nos seus voos repetidos. Ou o minuto preciso em que, por mero acaso, vimos cá fora e, no campo, nasce um borrego! A espera pela onda perfeita para furarmos em risos infantis que partilhamos com o sobrinho pequeno, e o olhar cúmplice do irmão. Ou o tempo que não tem tempo de ficar a passear no verde dos teus olhos. 

O tempo em que se admirava o milagre de um corpo feminino a surgir de um bloco de mármore, moldado pelas mãos do tio Carlos e o olhar atento da avó Mimi. E também o tempo da espera e da angústia — como naquele 29 de agosto no Hospital de Santo António. 

Nas férias, o tempo parece dilatar-se e seguramente não é o mesmo do período laboral, mas mesmo nesses dias de pausa, a realidade impõe-se.  

O verão de 2025 ficou, mais uma vez, marcado pelos incêndios. Chamas que consomem em minutos aquilo que levou décadas a construir. Vidas desfeitas. Territórios devastados. E nós, espectadores, ainda sem uma reforma florestal séria, ainda sem um verdadeiro ordenamento do território. Quanto tempo mais vamos esperar? 

No regresso às rotinas, é inevitável a pergunta: o que faremos com o nosso tempo? Continuaremos a assistir passivamente aos retrocessos sociais e culturais? Ou vamos usar o tempo como instrumento de transformação? Podemos — e devemos — cuidar de quem está próximo, envolvermo-nos nas lutas que importam, dizer basta à destruição do que é público e essencial. Porque o tempo não é neutro. É político. Está presente na luta por um Serviço Nacional de Habitação com uma verdadeira política pública, onde o desígnio não seja a demolição de bairros como o Talude ou, como disse uma candidata à Câmara da Amadora, “erradicar aquilo tudo”, referindo-se à Comunidade da Cova da Moura, acentuando a sua marginalização. Está presente quando lutamos contra o fim da Rede de Bibliotecas e do Plano Nacional de Leitura ou contra o retrocesso a que nos querem votar com a Reforma Laboral e da Segurança Social 

Este é, para mim, um tempo de regresso. A novas rotinas, a novas realidades. Mas também é tempo de decisão — e eu sei, com clareza, o que quero fazer com o meu tempo. 

Vereadora independente, Cidadãos Por Lisboa, na CML 

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