No centro só está o PAN?

Publicado a
Atualizado a

É uma perda de tempo continuar a discutir-se se o PSD se alia ao Chega, ou não, para formar Governo. Não é preciso qualquer aliança futura. Ela já existe, implícita, e com um método de funcionamento que não precisa de papel assinado e comunhão de bens. Por essa razão, o que está em confronto nas próximas eleições é se ganha a esquerda ou a direita. Se ganhar a esquerda, há geringonça. Se for a direita, há um resultado que pode fazer a diferença: PSD + Iniciativa Liberal terem mais votos que a esquerda unida. Porque isto seria suficiente para nem sequer ser necessário o voto favorável do Chega - basta a abstenção. Obviamente, Montenegro passará a vida dobrado perante Ventura para impedir que o Chega vote com a esquerda. Mas não é preciso nenhuma aliança. Desde que Pedro Passos Coelho criou Ventura como candidato do PSD, a comunhão de interesses PSD-Chega ficou no embrião fundador desta dissidência radical. Em muitos dossiers, sobretudo económicos, vivem em união de facto.

Portanto, os eleitores do centro, que não querem Pedro Nuno Santos nem Luís Montenegro, têm agora um enorme dilema: abstêm-se? Mais insuflado fica o voto de protesto do Chega e da esquerda mais radical. Votam em branco? Igual. Como desarmadilhar o sistema?

O cenário mudou com as eleições da Madeira. Num passo responsável, o PAN fez algo de útil para o PSD e para aquela democracia regional. Em vez de obrigar o PSD de Albuquerque a ter de se ajoelhar aos pés do Chega, o PAN deu ao PSD a maioria que lhe escapou por um deputado.

O mesmo pode acontecer nas próximas eleições legislativas. Dois ou três deputados podem fazer toda a diferença para se obterem maiorias parlamentares sem o Chega. Ora, sabemos que votar neste novo PS, no Bloco, no PCP ou no Livre, significa montar-se uma nova geringonça. E na direita igual: PSD e Iniciativa Liberal, sozinhos, não terão a maioria - e o apoio do Chega contaminará a direita por muito tempo. Daí que só um partido pode fazer o equilíbrio, caso a caso: o PAN. Maiorias: Geringonça + PAN, ou PSD-IL + PAN.

Mas, o que quer o PAN? Quando espremidas e comparadas com as monstruosidades de Ventura, as exigências do PAN são uma brincadeira de crianças. Ainda por cima, a vocação do PAN não é fazer parte de governos, é aferir diploma a diploma o que é melhor para aqueles três valores-conceitos que estão no seu nome de origem: "Pessoas, Animais e Natureza". Ainda por cima, Inês Sousa Real não é uma radical incapaz de mitigar exigências nas suas propostas, tal como se viu no apoio ao dificílimo Miguel Albuquerque.

Perante esta nova geografia política, quem defende o centro? Há questões essenciais para serem salvaguardadas quanto ao nosso futuro. Seca, lítio, aeroporto, menos emissões nas cidades, energia descentralizada, renovação das florestas com espécies autóctones, etc., são temas cruciais e que precisam de moderação -- face à sofreguidão do PS e PSD em entregarem-se à vertigem do investimento a todo o custo.

Sabendo-se que Pedro Nuno Santos não viabilizará um Governo de direita, nem Montenegro um de esquerda, não há nenhum partido capaz de apoiar a esquerda ou a direita a não ser o PAN - como na Madeira. E um deputado, ou meia dúzia deles, podem ser a diferença para bloquear Ventura.
Obviamente, ainda falta muito tempo até 10 de Março. Mas, à data de hoje, e perante a ameaça de um país sempre entregue aos mesmos lobbies, só está à vista um travão de emergência:
o desejável bom senso de Inês Sousa Real para moderar ao centro um país autofágico.


Jornalista

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt