Não são borboletas, é a democracia

Em vários países, perante o crescimento da extrema-direita, as forças democráticas estabeleceram cordões sanitários que excluíram partidos racistas e xenófobos (além de outros ataques aos Direitos Humanos) de participarem no governo ou na constituição de maiorias parlamentares.

Esta opção resultou da constatação do óbvio: as propostas, o discurso e os próprios valores desses partidos não são compatíveis com os princípios democráticos. Estabelecer acordos tornaria o exercício político permeável à sua influência, cedendo nos valores essenciais.

Porém, o afastamento da direita democrática do poder durante alguns anos tem levado a que, em alguns Estados, se esteja a transpor essa barreira.

Acabou de acontecer na Suécia. Os partidos liberais e conservadores da direita democrática vacilaram, abdicando dos seus princípios e aceitando um recuo civilizacional para chegarem ao poder.

Apesar de não nomear o Primeiro-Ministro, a extrema-direita será o maior partido da coligação. A expectativa é agora de um governo nacionalista, anti-imigração e eurocético.

Sendo certo que aceitar a extrema-direita é moralmente ruinoso, é também difícil compreender o sentido estratégico dessa decisão. Não faltam exemplos de partidos de centro-direita que, incapazes de rejeitar veementemente essa colaboração, acabaram penalizados.

Por um lado, perdem os votos de quem, mesmo sendo do seu campo político, rejeita a ida dos extremistas para o poder. Por outro, ao contrariar o sentido de voto útil, perdem votos para a própria extrema-direita. Um duplo desastre, justificado apenas com a sede de poder.

Assim foi na Suécia. O Partido Social Democrata (centro-esquerda) registou o maior aumento de votos dos últimos 20 anos, ganhando as eleições de forma destacada. Já a extrema-direita ultrapassou a direita tradicional e transformou-se no segundo maior partido.

Em Itália, que vai a votos no próximo domingo, parece desenhar-se o mesmo caminho. As sondagens indicam que o partido de Berlusconi, que aceitou participar numa coligação com a extrema-direita de Matteo Salvini e Giorgia Meloni, deverá perder metade do seu eleitorado. Meloni, estrela em ascensão, poderá ser a vencedora das eleições e próxima primeira-ministra. A aliança com direita tradicional permitiu atenuar o facto de ser de extrema-direita e os registos da sua admiração por Mussolini. É o processo de normalização em curso.

Por cá, a abertura de Rui Rio à extrema-direita - primeiro com a aceitação do acordo nos Açores, depois ao não excluir um acordo pós-eleitoral de âmbito nacional - fez o PSD perder votos para o PS, IL e Chega, alcançando o pior resultado em Legislativas desde 1983. Mas por vezes as lições demoram a ser aprendidas e Montenegro parece repetir a receita, com declarações tão ambíguas sobre a relação com o Chega que se prestam a todas as interpretações.

Com as dificuldades económicas provocadas pela guerra e pelos preços da energia, espera-se um ciclo eleitoral suscetível ao populismo. Não há melhor altura para a direita democrática esclarecer a sua posição.

Rejeitar a extrema-direita não é um caminho das borboletas. É um compromisso claro em não sujeitar a democracia e os Direitos Humanos ao tubo de ensaio do radicalismo versão Século XXI.

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Roger Federer

Aos 41 anos, anunciou o fim da carreira. No mundo do desporto, poucos são tão consensuais. Federer é. Não apenas pelos 103 títulos que venceu (20 Grand Slams), mas também porque foi um desportista exemplar, ganhando ou não. O mundo perde um extraordinário campeão. Resta-nos a consolação de ser também um cidadão exemplar

Eurodeputado

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