Não podemos varrer o Afeganistão para debaixo do tapete

Mario Draghi, o primeiro-ministro italiano e atual líder do G20, convocou para 12 de outubro uma cimeira extraordinária do grupo, com um único ponto na agenda: o Afeganistão. Trata-se de uma reunião urgente, que não pode esperar pela cimeira anual, que está marcada para os dois últimos dias deste mês. As preocupações sobre o Afeganistão são essencialmente duas: o drama humanitário, já muito agravado neste momento, mas que se tornará catastrófico com a iminente chegada do inverno; e a definição das condições necessárias para o reconhecimento internacional do regime talibã.

A União Europeia aprovou, entretanto, uma ajuda humanitária de 200 milhões de euros. Outras ajudas são urgentes, até porque a comunidade dos doadores havia, a 13 de setembro, prometido mais de mil milhões de dólares, em resposta a um apelo lançado por António Guterres. Mas, como sempre, uma coisa são as promessas, outra a sua materialização. Para além das dificuldades logísticas e da insegurança, as agências humanitárias precisam de garantias de neutralidade, por parte dos talibãs. Só assim se poderá assegurar que a ajuda alimentar, a assistência médico-sanitária e o apoio à educação cheguem a quem delas carece, sem qualquer tipo de exclusão por motivos de pertença étnica, de género, religiosos ou de relações de força.

Ainda na área humanitária, existem três outras grandes questões.

Uma tem que ver com o pagamento dos salários aos funcionários públicos e às forças de segurança, há meses sem os seus vencimentos. Não creio que haja vontade, ao nível do G20, de financiar essa despesa. Recentemente, o meu antigo colega Jan Egeland, uma voz reconhecida no campo humanitário e que hoje dirige o prestigiado Norwegian Refugee Council, escreveu uma carta aberta sobre o assunto, dirigida ao secretário-geral da ONU. Apelava para que fossem criados mecanismos que permitissem encontrar uma solução para pagar os salários à administração pública afegã, como já acontecia, em grande medida, durante a governação precedente. A carta dava seguimento à visita que acabara de fazer ao Afeganistão e ao choque que tivera perante a pobreza que se alastra a olhos vistos.

Outra questão respeita ao fornecimento de eletricidade. Milhões em Cabul e nas maiores cidades do país estão em risco de ficar às escuras. Com a chegada do inverno, isso poderá ser mais um cataclismo a acrescentar a todos os outros. O Afeganistão importa cerca de 70% da eletricidade que consome. O Usbequistão, o Turquemenistão, o Tajiquistão e o Irão são os fornecedores. Com a vitória talibã e o caos administrativo que se seguiu, cessaram os pagamentos das importações de eletricidade. Se a situação não mudar em breve, é muito provável que alguns desses países, sobretudo os que faziam parte da antiga União Soviética e que não nutrem qualquer espécie de simpatia pelos extremistas de Cabul, suspendam o fornecimento. Se isso acontecer, a agitação popular ganhará uma nova dimensão.

Por quanto tempo irá o Afeganistão necessitar de um volume excecional de ajuda humanitária é a terceira grande questão. A assistência deve ter um horizonte temporal. O país precisa de construir uma economia que lhe permita importar a energia e as mercadorias básicas que não consegue produzir, e ter um nível de vida razoável. A economia não deve estar baseada quase em exclusivo na produção de ópio.

O reconhecimento do novo regime, incluindo a sua representação na ONU, vai depender da posição que cada membro do G20 vier a adotar. Acontecimentos recentes mostram uma tendência para o estabelecimento de contactos pontuais, enquanto ao nível político se continuará a falar de valores, de direitos humanos, da inclusão nacional ou do combate ao terrorismo. E a mostrar muita desconfiança para com a governação talibã. Com o passar do tempo, se não surgir uma crise migratória extrema ou um atentado terrorista que afete o mundo ocidental, o novo regime afegão, reconhecido ou não, poderá ser apenas mais um a engrossar a lista dos Estados repressivos, falhados e esquecidos.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral adjunto da ONU

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