Não leu, mas é contra

Publicado a
Atualizado a

Depois de vários anos sem evolução, o acordo entre António Costa, Pedro Sánchez e Emmanuel Macron para a criação de um Corredor de Energia Verde relançou a possibilidade de unir a Península Ibérica ao mercado europeu de energia. Além de contribuir para aliviar a pressão sobre o fornecimento de gás à Europa, possibilitará a circulação de hidrogénio verde no futuro, criando também as há muito prometidas ligações elétricas.

Com o acordo, Portugal e Espanha ganham perspetivas de exportar energia para os restantes países europeus. Reforça o interesse em desenvolver a nossa capacidade produtiva, que passará a escoar para todo o continente, e valoriza a opção de Portugal, que desde cedo procurou investir na produção renovável e definiu a produção de hidrogénio verde como setor estratégico.

Quebrado o paradigma da ilha energética ibérica, a posição geoestratégica da Península Ibérica ganha uma nova centralidade como porta de entrada de gás com origem em África e nos EUA. Os benefícios económicos para Portugal - valorização do porto de Sines, rentabilização das infraestruturas nacionais de gás e venda da produção elétrica aos parceiros europeus - são acompanhados pelo reforço da autonomia energética da UE, ainda parcialmente dependente do gás russo.

Por um lado, a diversificação de fornecedores reforçará a resiliência da rede energética, reduzindo a vulnerabilidade do nosso sistema económico. Por outro, a interdependência entre Estados-membros reforça a unidade europeia na resposta à invasão russa da Ucrânia.,

A solução agradou a todas as partes. Ou melhor, quase todas - só mesmo a direita não ficou satisfeita.

Sem surpresa, o PSD manifestou-se prontamente contra. Crispado e depois de tecer o habitual rol de críticas - para quem tudo o que vem do governo é, por definição, mau - Paulo Rangel acabou por confessar que "temos mesmo de conhecer o acordo que ninguém sabe como está feito". Portanto, não leu, mas é contra.

De Luís Montenegro, sendo este um acordo de natureza estratégica e com implicações a longo prazo, esperava-se outra atitude. Mas, embalado por este tom, o líder do PSD fez questão de vincar que nunca teria assinado tal compromisso. Faltou-lhe esclarecer o que faria para impor a construção (em países soberanos) de uma solução chumbada em termos ambientais, regulatórios e financeiros.

Esta oposição a qualquer custo e a qualquer coisa até pode ter eco junto dos militantes do PSD que pediam uma liderança mais combativa, só que não ganha tração junto dos eleitores. O valor da crítica não depende da frequência ou volume com que é feita, mas sim pela sua pertinência e precisão.

Entretanto, as ministras francesa e espanhola já vieram destrunfar o PSD. Não se abandona qualquer projeto de infraestruturas elétricas entre as duas partes, podem aliás ser reforçadas. Caiu o grande argumento do PSD para criticar o acordo do governo português.

Há, portanto, um problema de conexão, sim. Mas é do PSD com a realidade.

A alta de inflação tornava particularmente difícil a celebração de um acordo de rendimentos na Função Pública. Discreta e eficiente, a ministra da Presidência conseguiu o acordo tanto da FESAP como do STE, o que não acontecia há 23 anos.

Eurodeputado

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt