Não há posteridade

E tudo o mais renova, isto é sem cura
Sá de Miranda

Diz-se que Tolstoi, no fim da sua vida, gritava: "De que me vale ter escrito a Guerra e Paz, se de qualquer modo vou morrer?" Para aqueles que não escreveram a sua Guerra e Paz, mais dura e amarga se vai colocar a mesma questão. Todos os possíveis que fomos se vão desfazendo com o passar dos anos. "Todo o homem é múltiplo no nascimento e único na morte", formulava Heidegger, que tinha a elegância de não gritar como Tolstoi (preferia fazer os outros gritar...). O que podíamos ter sido pesa-nos mais ao envelhecer e todos os vencidos da vida são aqueles que se sonharam um pouco além da mediania, por um pouco mais de azul...

Olhar para a tabacaria do outro lado da rua fazia sentir a Fernando Pessoa a vertigem do infinito de Pascal ("Ele morrerá e eu morrerei/Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos/A certa altura morrerá a tabuleta também e os versos também/Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta/E a língua em que foram escritos os versos"). Cada um de nós está a sós com a sua contingência e ninguém sabe o que o futuro dirá de nós, caso o futuro se dê ainda ao trabalho de em nós pensar.

Para quem escreve, há sempre a esperança improvável que os seus escritos sejam lembrados. Nada mais precário e infundado do que essa expectativa: se no tempo da nossa vida vimos deixarem de ser lidos os que outrora considerávamos grandes, como pretender que as coisas que agora escrevemos durem para as gerações futuras? Stendhal dizia que a posteridade é uma lotaria e vemos que tinha razão, até pelo prazer que sentimos em ter ganho nessa lotaria o prazer enorme de ler Stendhal.

Escrevemos para pessoas que não conhecemos e que um dia encontrarão alguma coisa de si próprias e da sua descoberta do mundo nas palavras que tecemos.
É esse encontro improvável e sem lugar certo o maior prémio de um escritor. Nenhuma posteridade longínqua poderá melhor identificar-se com o que escrevemos do que esse leitor para sempre desconhecido que nos deu a sua "adesão no segredo do coração", como exprimiu um dia Julien Gracq.

Também a humanidade inteira, como um prado florido na primavera, será tão-só uma exuberância criada para o nada por uma força cega, como dizia Nietzsche nos ser insuportável aceitar. "Também morre o florir de mil pomares/e se quebram as ondas no oceano", ante o nosso olhar frágil e a nossa vida precária, lembra ainda Sophia. Não há renovar das estações para o nosso próprio percurso.

E no entanto valeu a pena ao velho Tolstoi ter escrito a Guerra e Paz e ao inquieto Stendhal jogar na lotaria da literatura. Só porque hoje encontramos nos seus personagens as nossas maiores inquietações e as nossas mais secretas paixões. Podemos hoje fazer parte daquela sécrète coterie que Julien Gracq invocava, à volta de tudo aquilo que os autores que lemos e relemos nos sussurram a partir do silêncio das suas páginas findas. Não consola aquele que vai morrer nesse mesmo dia de inverno numa estação de comboio russa, mas consola esta multidão íntima e infinita que recebe no mais fundo de si as palavras que são a nossa herança.

Nada nos liberta em verdade da lei da morte. Resta-nos pensar, se não na grandeza e no bem que não conseguimos alcançar, ao menos na baixeza e no mal que formos capazes de derrotar. "Que força é essa, amigo?", pergunta-nos Sérgio Godinho. É a força que nos leva a recusar a cumplicidade com o mal, a complacência com a mentira, o embalar das ilusões com que alguns querem mudar o nosso século.
É pensarmos também nos que virão depois de nós receber o que lhes deixarmos de herança. É, por exemplo, não querermos deixar aos nossos filhos uma ditadura burra como a que nós tivemos de suportar.

Diplomata e escritor

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