Não é futebol, é política e da boa!

É sempre da boa, o que me recorda episódio do Brasil da ditadura militar, durante o Mundial de 1970. Era importante para o regime que o Escrete, com Pelé à cabeça, conquistasse o Tricampeonato. Para a oposição comunista, na clandestinidade, era importante que o México 70 corresse muito mal aos canarinhos. Conta um desses clandestinos, que assistiu ao jogo da final num apartamento de São Paulo, queria que perdessem e quando o Brasil marcou foi para a janela, deu três tiros para o ar e gritou em lágrimas "puta que pariu, como é bom ser brasileiro!"

O Portugal-Marrocos de amanhã, descascado à margem das mialgias e dos 4x3x3 mais os alas, em tudo espelha a importância política do futebol para ambos os regimes. Ou porque será que o Presidente Marcelo se mantém em campanha sem hipótese de um terceiro mandato? E tudo e tudo e tudo, que todos/as estamos sintonizados/as domingo à noite com o que vale a pena ver da encenação, primeiro com os comentários de Marques Mendes e depois com o ritmo e a poesia de RAP, Ricardo Araújo Pereira. Ou seja, já só vemos o compacto da semana, o melhorzinho, apresentado pelos maiorzinhos!

Os Leões do Atlas, a Selecção Marroquina de Futebol, também tem peso semelhante, duplo, talvez triplo até em Marrocos. Porquê?

Porque as vitórias desta equipa, todas elas e nós temos o exemplo do México 86, aliás uma referência na memória colectiva de todos/as súbditos/as esses 3-1 de Guadalajara! Dizia, porque as vitórias desta equipa, todas elas, são fruto de um trabalho colectivo maroco-marocain! Quero dizer, os resultados de uma equipa são sempre fruto do colectivo, mas no caso marroquino escala para múltiplas dimensões. Há a dimensão da perspectiva da equipa mais pobre face aos milionários galácticos que vão defrontar, cuja referência bíblica David e Golias tem lastro no Islão. Ganhar, começando com prolegómenos de base na força divina, "Morra Sansão e todos os que aqui estão!" Um primeiro sintoma de Comunidade inabalável, até porque está tudo a passar na TV.

Depois há a perspectiva da bipolaridade, com amazighs a evidenciarem a berberidade de Marrocos com base na berberidade da Selecção e os árabes a fazerem o mesmo, mas no seu sentido, evidenciando o facto de nunca nenhuma equipa árabe ter chegado tão longe num Mundial. Os amazighs levantam a bandeira de África e de ser a única equipa em representação do continente nesta fase final da competição. Outra responsabilidade, afinal os leões estão todos em África! Todos ganham, porque é tão bom ser-se brasileiro como tão bom ser-se marroquino!

O ponto alto das comemorações da noite de terça-feira, foi O Unificador superlativo, o Monarca quando saiu à rua para comemorar com o seu povo. As redes sociais invadem-se de pequenos vídeos de diferentes ângulos desse momento e passasse a comemorar logo a próxima vitória, que já não se aguenta com tanta alegria!

"Futebol é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer!"

O "desatino desta dor" na vitória face à Espanha, é o agridoce da vingança do ex-colonizado sobre o principal parceiro comercial. Já o jogo com Portugal terá no cenário uma batalha naval entre bons piratas, velhos amigos, que verão comemoração na Baia de Salé, onda uma Aisha Qandisha está sempre à espreita!

Politólogo/arabista www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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