Mudar de rota para evitar a colisão

Realiza-se hoje a primeira cimeira do Quad, uma nova plataforma de consulta estratégica entre os Estados Unidos, a Austrália, a Índia e o Japão. Quad resulta da abreviatura de quadrilateral. Desde 2007 que os ministros dos Negócios Estrangeiros destes países se encontram, esporadicamente, para discutir a segurança da região indo-pacífica. Desta vez, a reunião é ao mais alto nível, embora de modo virtual, com Joe Biden e os primeiros-ministros dos três outros Estados.

O presidente norte-americano e Scott Morrison, da Austrália, são os verdadeiros instigadores deste projeto. Narendra Modi e Yoshihide Suga tinham mais reticências. Não queriam que o encontro parecesse o que na verdade é: uma via para discutir como travar a crescente influência da China nas regiões do Índico e do Pacífico. Por isso, a agenda oficial regista três pontos apenas: o combate à pandemia, a cooperação económica e a resposta às alterações climáticas. Esta lista esconde assim a preocupação dominante, o poder cada vez mais resoluto da China nos dois oceanos e junto dos Estados ribeirinhos. A China já possui a maior frota armada do mundo, com navios de combate, de assalto anfíbio, de logística, porta-aviões, quebra-gelos polares e submarinos. Nos últimos 20 anos, a sua capacidade naval foi multiplicada por três. Tem mais embarcações do que os Estados Unidos e a ambição para o corrente quinquénio (2021-2025) foca-se no aceleramento da produção dos meios que assegurem presença e visibilidade, no aumento da capacidade em mísseis de vários tipos e na expansão do armamento nuclear.

A envergadura destes investimentos militares e a política externa muita incisiva do presidente Xi Jinping deixam alarmados muitos estrategas americanos. É neste contexto que deve ser vista a cimeira do Quad. Há mesmo quem pense que, a prazo, o objetivo de Washington é o de criar uma aliança de defesa que abranja o Índico e o Pacífico, num arranjo que se inspiraria no que existe no Atlântico Norte, ou seja, a criação de uma NATO do Oriente.

Não vai ser fácil. A Índia, por muitos problemas fronteiriços que tenha com a China, não quer ser vista por Beijing como um vizinho hostil. Procura, apesar das disputas existentes, manter um certo equilíbrio diplomático com os chineses, de modo a moderar o apoio destes ao Paquistão, que é olhado pelos líderes indianos, esse sim, como o seu inimigo número um. Mais ainda, Nova Deli quer aparecer, não só perante os chineses mas também face aos russos, como um poder autónomo em matéria de defesa. Modi é um nacionalista que sabe muito de geopolítica e de jogo de forças.

O Japão, por razões diferentes, também não deseja entrar numa confrontação aberta com a China. Procurará continuar a beneficiar do guarda-chuva militar americano, mas sem ir além de uma política prudente em relação a Beijing. Tóquio aposta mais nos interesses mútuos do que na rivalidade. E enquanto Beijing não tentar capturar as ilhas japonesas de Senkaku, há muito objeto de disputa diplomática entre os dois países, Tóquio não deverá alterar a sua posição.

Porém, a estratégia americana nesta parte da Ásia é a de criar uma frente de contenção face à China. Se a iniciativa Quad não resultar, voltar-se-ão para a Europa, a começar pela NATO. É aqui que tudo isto tem que ver com a nossa segurança. Não defendo a ideia de uma aliança esticada até aos confins do globo, por muito que os europeus vejam a China como um competidor económico pouco leal ou como um Estado que não segue os valores que consideramos essenciais - a democracia, a liberdade e os direitos humanos.

O risco de um confronto armado naquela parte do mundo é cada vez maior. O papel da Europa deve ser o de apelar à moderação, ao respeito pelas normas internacionais e ao diálogo efetivo entre os líderes americanos e chineses. Os desafios globais que o mundo hoje enfrenta já são por demais e exigem a construção de uma agenda de cooperação entre as grandes potências. E aí, sim, deverão poder contar com o empenho europeu.


Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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