Mudar de perspetiva ou mudar de país?

(...) importam-se, que é em Portugal para tudo o recurso natural.
Aqui importa-se tudo (...). A civilização custa-nos caríssima
com os direitos da alfandega: e é em segunda mão, não foi feita
para nós, fica-nos curta nas mangas....(...). Isto é uma choldra torpe.
Onde pus eu a charuteira?
Desembaraçado da majestade que lhe dava a peliça, o antigo
Ega reaparecia, perorando com os seus gestos aduncos
de Mefistófeles em verve, lançando-se pela sala como se fosse
voar ao vibrar as suas grandes frases, numa luta constante com
o monóculo, que lhe caía do olho, que ele procurava pelo peito,
pelos ombros, pelos rins, retorcendo-se, deslocando-se, como
mordido por bichos. Carlos animava-se também, a fria sala
aquecia (...); depois, com ferocidade e à uma, malharam sobre o país..."

(in Os Maias, Eça de Queiroz)

Não resisti, para ilustrar a minha crónica de hoje, a reproduzir mais do que devia, porque o texto acima é delicioso a vários níveis, também na imagem do João da Ega desesperando em busca do monóculo.

Mais do que devia, porque o meu ponto era este: dois dos grandes diletantes do romance maior do, para mim, maior romancista português, tinham por hobby deslustrar o país. São muitas as passagens em que estas e outras personagens se entretêm a bater no país e nos portugueses, embora também lhes cheguem, volta e meia, laivos de patriotismo e se enalteçam as nossas barrigadas de riso, quando "na Europa o homem requintado já não ri, - sorri regeladamente, lividamente. Só nós aqui, neste canto do mundo bárbaro, conservamos ainda esse dom supremo, essa coisa bendita e consoladora (...)".

É de facto muito curioso que nos tenha ficado, infelizmente não com tanta graça e verve, esta tendência para apoucar o que é nosso, ou mais prosaicamente, para dizer mal de Portugal.

Todavia... tal choca com a visão que hoje, tanto os que nos visitam como os que nos escolhem para viver e muitos dos emigrantes, têm do nosso país.

Não são os números do turismo, mas os prémios que arrecadamos que falam por si. Só para referir alguns, Portugal é considerado "The Friendliest Country in The World" para expatriados e o 5.º melhor país para viver e trabalhar (InterNations); o 4.º país melhor para os reformados, no "Retirement Index" (International Living); o 4.º país mais pacífico e seguro do mundo (Global Peace Index).

Creio que, de facto, o turismo vem contribuindo para ganharmos um crescente amor e orgulho pelo nosso país; pelas nossas tradições e costumes; território; paisagens naturais e construídas; pessoas; até pelas nossas bizarrias.

Em termos de World Travel Awards já pouco temos a ganhar: a Madeira, melhor Destino Insular do Mundo; os Açores, melhor Destino de Turismo de Aventura da Europa; o Algarve, melhor Destino de Praia do Mundo; os Passadiços do Paiva, melhor Atração de Turismo de Aventura do Mundo. Em 2021, Braga foi considerada o melhor Destino Europeu (European Best Destinations) e o Porto eleito o destino imperdível (National Geographic UK).

Dá que pensar. Será que na verdade o nosso país só é bom se visto por outros olhos (ou monóculos)? Ou será que precisamos de ter a experiência de fora, do que é viver noutros países, de ter saudade, para valorizar o que temos? Ou ainda, só valorizamos o que é nosso se outros o valorizarem?

Francamente não sei qual a resposta. Mas creio que, de facto, o turismo vem contribuindo para ganharmos um crescente amor e orgulho pelo nosso país; pelas nossas tradições e costumes; território; paisagens naturais e construídas; pessoas; até pelas nossas bizarrias. Não serve, é claro, para apagar os nossos defeitos, nem para esquecer os desequilíbrios (que os há - e exigem correção -, desde logo entre os estrangeiros que nos procuram para viver e os portugueses que aqui vivemos; e Lisboa, justamente carregada de prémios, é também considerada a 3.ª cidade do mundo mais cara para se viver, ponderando o rendimento médio disponível, o custo de vida e o valor médio de renda [CIA Landlords, março 2022]), mas para olharmos para nós sob outra perspetiva.

E não, não importamos o nosso carisma e forte identidade, as nossas maravilhosas qualidades. Essas são intrinsecamente nossas. E por elas somos procurados e estimados.

VP executiva da AHP - Associação da Hotelaria de Portugal

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG