"Morocco Now" é agora!

"Morocco Now - Investment and Export", trata-se do novo label - rótulo - lançado pelo nosso parceiro do Sul nesta semana, à margem da participação do reino na Expo Dubai 2020.

Trata-se de uma iniciativa mediática para colocar os holofotes nas capacidades de produção e exportação do país, com vista a captar ainda mais investimento estrangeiro. E se há coisa que os marroquinos conseguem fazer melhor do que nós é dourar a pílula, alavancar e vender. Porquê? Porque não têm vergonha, porque o trauma do ex-colonizado os obriga a quererem provar ao europeu que a independência não foi um capricho, mas sim um destino manifesto, o qual vem sempre com um propósito, o de serem os melhores em África.

Os 38 anos de reinado de Hassan II foram essenciais para a consolidação de mitos fundadores simples, mas que cumprem até hoje os seus propósitos na consolidação de uma consciência de nação una e indivisível, dentro das clivagens entre árabes e berberes, religiosos e não praticantes (mas não menos muçulmanos), norte e sul, litorâneos e terratenentes do interior. São também estas diversidades regionais e idiossincráticas que definem linhas de fronteira internas materializadas em diferentes línguas/dialectos e sobretudo entre ricos e pobres. Daí a importância do cimento que a questão sarauí representa na unificação deste labirinto de contradições, através do jargão "a marroquinidade do Sara", que deriva do conceito do Grande Marrocos, construído pelo ISTIQLAL, o primeiro partido político marroquino e que data de 1943. Outro mito fundador muito simples e consolidado nesses 38 anos é outro jargão na cabeça de todos/as e que diz "Maroc le plus beau pays au monde", Marrocos o mais belo país do mundo. Talvez esteja aqui a resposta à admiração dos portugueses que do topo da pirâmide de certos sectores fabris me confidenciavam ao final do dia: "Não percebo estas gajas, pá, fartam-se de trabalhar, quando chegam a casa têm de fazer tudo e andam aqui sempre alegres, sempre a rir e nunca se negam a nada!" Pudera, quem vive no "país mais belo do mundo" é intrinsecamente feliz!

Mohamed VI mitigou estas diferenças entre norte e sul, litoral e interior, com auto-estradas, TGV e com deslocações e longas estadas periódicas no Norte, bem como a realização da Festa do Trono em Tânger e Tetuão. Este detalhe é fundamental no sentido da unificação, já que o seu pai nunca se deslocou ao Norte, chegando a chamar os rifenhos de insectos, num famoso discurso eternizado pelas redes sociais durante a Primavera Árabe. Hassan II nunca perdoou o precedente da República do Rif (1921-27) e sempre aí viu ameaça permanente.

"Morocco Now" quer dar ainda mais visibilidade ao Tânger-Med, maior porto marítimo em África e Mediterrâneo e 20º a nível mundial, à indústria automóvel que a partir de Tânger preenche as estradas europeias, à indústria aeroespacial, à produção de vacinas anticovid (chinesa, russa e indiana), a próxima arma diplomática marroquina para África, às energias renováveis que terão na Península Ibérica o seu destino mais próximo e óbvio. Tudo isto num momento em que um novo governo claramente pro-business tomou posse e encerrou uma década de islamismo domesticado pelo Palácio.

Muito teremos a aprender em auto-estima, promoção e vendas com quem ainda chamamos pejorativamente de mouros!

Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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