Moro é o mecanismo

No domingo, dia 5, o pré-candidato à presidência Sergio Moro visitou Recife, capital de Pernambuco, na região Nordeste do Brasil, tantas vezes decisiva nas eleições. O antigo juiz da Operação Lava Jato e ex-superministro da Justiça e da Segurança Pública de Jair Bolsonaro usou um chapéu de couro, típico da região.

Antes dele, Lula da Silva, que é natural do estado, Jair Bolsonaro, Fernando Haddad, Geraldo Alckmin, José Serra, Aécio Neves e outros candidatos à presidência da República haviam produzido a mesma encenação fotográfica, à procura de uma identificação regional eleitoralmente rentável.

Ao cair no lugar comum, Moro deixou escancarado aquilo que quer a todo o custo omitir: ele, o suposto "não político profissional", é apenas mais um candidato, muito mais igual aos outros do que se declara e tão dentro do sistema que jura combater como os demais.

Aliás, ele é, mais do que qualquer outro, a encarnação desse sistema.

Nunca antes na história deste país - para usar o bordão preferido de Lula enquanto presidente, "nunca antes na história deste país um operário chegou a presidente", "nunca antes na história deste país o pobre fez parte do orçamento" - um candidato foi (será) tão apoiado pelo sistema como Moro em 2022.

Por sistema, leia-se o mercado, essa figura sem rosto (nem alma, nem caráter); a grande imprensa brasileira, a mesma que incensou, por exemplo, o candidato Collor de Mello em 1989; e as elites, bregas como todas elas, sobretudo as tropicais.

O primeiro, o mercado, não tolera Lula, por princípio, apesar de ter lucrado com os seus dois governos, e só tolerou Bolsonaro, porque, entre um defensor de torturadores, como ele, e um defensor da luta contra a desigualdade económica pornográfica do país, como Haddad, achou os torturadores um mal menor. Para o mercado, a tortura não tortura tanto a Bolsa de Valores como os valores humanos.

O segundo, a grande imprensa, é supostamente liberal na economia e no comportamento. Ao defender um estado pequeno e eficiente - nada contra estados pequenos e eficientes, antes pelo contrário, mas não (ainda) num país onde quase 30 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza e mais de 100 milhões não têm acesso a coleta de esgoto - hostiliza Lula. E ao abraçar o combate contra a homofobia, entre outras causas identitárias, distancia-se do bolor bolsonarista.

As elites, que se intitulam "conservadoras" mas, na verdade, são é "atrasadas", até concordam com o ideário do atual presidente, porém, acham, que está na hora de mandar embora um governo que propagou o vírus e fez o dólar subir, dificultando, pelos dois motivos, viagens higiénicas a Nova Iorque ou Paris. Sobre Lula e afins mantêm uma opinião com quase 500 anos de idade: lugar de pobre é na senzala e não a sujar o chão esterilizado da casa grande.

Em suma, a Faria Lima (equivalente brasileiro de Wall Street) encara Moro, que não usa barba de sindicalista, nem vomita burrices que assustam o mercado, o candidato mais palatável para os investidores. A comunicação social vê no juiz, que tantas manchetes garantiu aos jornais em violações flagrantes do segredo de justiça, a encarnação do futuro embora cheire a passado por todos os poros. E a elite percebe nele um provinciano, é certo, que a adulará mais do que os demais concorrentes.
Moro é, em suma, o sistema. Moro é o mecanismo.


Jornalista, correspondente em São Paulo

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