Mobilidade em Lisboa: quo vadis

Há opiniões para todos os gostos, mais ainda hoje estou convencido de que a derrota de Fernando Medina e do Partido Socialista na eleição autárquica do ano passado para Lisboa se deveu, em grande parte, ao tema da mobilidade. Não tanto pelo conteúdo das propostas e medidas, mas mais pela forma como as mesmas eram apresentadas e comunicadas. Por estes dias, reemergiu uma Lisboa perdida na mobilidade, com ideias, ambições e propostas divergentes, onde a Esquerda política tem andado bem pior do que a gestão social-democrata de Moedas.

Comecemos pelo Livre, que acha que se deve imobilizar a cidade, limitando a velocidade a 30 ou 40 Km/hora. Sem estudos e com o bizarro argumento de que assim se reduz a dependência do petróleo russo, num contexto de guerra. Afinal, Lisboa ainda pode salvar Kiev! Quem alguma vez estudou engenharia de tráfego, saberá que, em média, esta medida dificilmente traz ganhos ambientais ou energéticos em contexto urbano, apenas se justificando em áreas residenciais. A velocidade máxima é um indicador muito pobre para este efeito, impondo-se estudar a fluidez, a frequência de travagens e acelerações, a duração da viagem e o custo do tempo. Quando se mexe com um organismo da complexidade de uma cidade, a prudência é a melhor conselheira.

A Almirante Reis voltou à ordem do dia. Moedas fez o que prometeu em campanha eleitoral, começando a mexer na ciclovia, e, agora, o Bloco de Esquerda parece querer travar tudo porque quer ouvir de novo as pessoas. Talvez os bloquistas não tenham percebido que o tema foi mais do que referendado nas eleições autárquicas. É a democracia.

Por estes dias, reemergiu uma Lisboa perdida na mobilidade, com ideias, ambições e propostas divergentes, onde a Esquerda política tem andado bem pior do que a gestão social-democrata de Moedas.

Fala-se também em fechar algumas avenidas aos domingos e feriados. Há já reações extremadas, mas devo dizer que esta é uma medida que acontece em várias capitais do mundo e que tem contribuído para o usufruto dos centros das cidades maiores, praticamente sem custos económicos. E sempre é um dia, ou meio-dia, sem emissões, o que permite limpar o ambiente urbano.

Outro tema que está a causar alvoroço é a rede de radares que vai aterrar sobre o trânsito da cidade de Lisboa. Ouço dizer que o objetivo é aumentar - substancialmente - a arrecadação em multas, o que estou certo vai acontecer. Quem de nós não caiu já nas malhas do controlo de velocidade e foi apanhado a 62 Km/h ou algo parecido? É desagradável, mas, da mesma forma que suspeito da redução para os 30 ou 40, também não posso admitir que tantos andem tão rápido. Não são poucos os portugueses em versão Fittipaldi, que lançam a confusão e aumentam o perigo nas ruas das nossas cidades, pelo que os radares estão aí para quem os merece. E tem razão Carlos Moedas quando diz que o condutor tem duas opções: respeitar o limite ou não.

Nesta minha viagem pelo admirável mundo da mobilidade lisboeta, não podiam faltar as greves gourmet do metro. Na décima greve desde o início do ano, os sindicatos - Fectrans, STTM, Sindem e STMetro - repetem as razões estafadas da falta de condições e do mau clima de trabalho. Estes são os trabalhadores mais bem pagos e com maiores privilégios dos transportes públicos em Portugal. As greves que repetidamente convocam, em regime parcial para fazer mais dano para os outros e menos para eles, destinam-se exclusivamente a manter e prolongar as suas benesses. A cidade merecia melhor.

Como disse Sérgio Sousa Pinto, na fina sagacidade que o define, "nós vivemos nos apanhados". Salva-nos a boa notícia da Carris Metropolitana, que vai fazendo um caminho nos municípios limítrofes que muito beneficia a própria capital.

Professor catedrático

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