Mil euros para os europeus

Por estranho que possa parecer, a bazuca europeia é pequena. Não foi o Plano de Recuperação que encolheu, mas a pandemia que se prolongou, agravando a crise e aumentando as necessidades de apoio.

Como já escrevi nestas páginas, enquanto nos EUA houve a capacidade de reagir e aprovar novos pacotes de estímulos orçamentais (com três vezes a dimensão do plano europeu), na UE não apenas não foi possível fazê-lo, como não se conseguiu ainda levar o Plano de Recuperação para o terreno. E fazer o dinheiro chegar à economia real faz toda a diferença. Disso depende a dimensão e a duração da crise; ou seja, milhares de falências, milhões de empregos.

Ao contrário da Europa, os EUA orientaram as medidas de recuperação para uma resposta rápida à crise económica, o que contribuiu para que no ano passado a queda no PIB norte-americano tenha sido cerca de metade da europeia.

Além de uma crise menor, terão também uma recuperação mais rápida e superarão o nível pré-crise já neste ano. Para o conseguir, contam com o Plano Biden, recentemente aprovado. De acordo com a OCDE, este terá um impacto positivo de 3,8% no PIB dos EUA nos próximos 12 meses; em contraste, o Plano de Recuperação europeu terá apenas um impacto estimado entre 0,5% e 1% do PIB.

É absolutamente claro que a UE precisa de colocar mais dinheiro na economia agora, e não apenas no longo prazo. Como dizia Keynes, "no longo prazo todos estaremos mortos".

Para o concretizar, a UE precisa de quebrar os tabus que limitam a sua capacidade de fazer o dinheiro chegar rapidamente à economia, estimulando a procura para que as empresas tenham clientes e possam manter os postos de trabalho.

Foi nesse sentido que no início da semana, nas páginas do Politico Europe, propus o pagamento pela UE de mil euros a cada desempregado, idoso ou criança, proposta que animou o debate nas redes sociais. Enquanto para uns é uma excelente ideia, outros veem nela um perigoso radicalismo de esquerda.

É sempre fascinante observar como uma certa direita portuguesa vê a peste em qualquer proposta que não corresponda aos ditames neoliberais. Neste caso, estou até acompanhado de outros perigosos esquerdistas que aplicaram a medida no seu país: Joe Biden... E Donald Trump. E, já agora, com excelentes resultados.

O pagamento que proponho teria um valor substancial (200 mil milhões de euros no conjunto da UE; 4,5 mil milhões em Portugal), mas corresponderia a apenas um sexto daquilo que foi pago nos EUA. Ainda assim, teria um impacto imediato na economia, impulsionando o crescimento quando mais precisamos dele. Agora.

Naturalmente, tal implicará realizar todas as habituais negociações no seio das instituições europeias e alterar os regulamentos europeus. Ao mesmo tempo, importará também reforçar o Plano de Recuperação. São passos que não devemos menosprezar. Mas são possíveis; e necessários.

A UE que fez história há um ano com um Plano de Recuperação ambicioso e solidário, é certamente capaz de superar este desafio bem menor.

20 VALORES
Rui Nabeiro

Um exemplo de humanismo e solidariedade. Uma inspiração para tantos de nós. Ao celebrar 90 anos, o comendador Rui Nabeiro é merecedor de todo o reconhecimento e carinho; tal como ele, ao longo de tantos anos, soube distribuir sem esperar nada em troca. Todos os portugueses lhe estão gratos. Obrigado, Rui Nabeiro!

Eurodeputado

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