Miguel e Carolina

Conheci o Miguel e a Carolina no sul do Camboja. Em Kampot, cidade de arquitetura colonial francesa e tranquilidade junto ao rio, onde assumem os destinos do Tertúlia, o único restaurante português no Camboja, desde 2019. Quando vieram passar 10 dias de férias... e ficaram até hoje, mesmo sem terem experiência prévia na restauração. Aprenderam.

Estão localizados na melhor zona da cidade, no meio do seu centro histórico, num edifício recuperado, e têm um restaurante lindo, com uma pintura do Pessoa numa das paredes. Oferecem arjamolho e peixinhos da horta, cataplanas, ameijoas à Bulhão Pato, posta mirandesa e vinho português. Adaptaram receitas portuguesas aos produtos locais. E muito mais. A preços cambojanos. Fazem um sucesso.

Os seus clientes mais fiéis viajam 4 horas para lá ir jantar, desde Phnom Penh. Os colegas de profissão, de outros restaurantes, vão comprar-lhes, à pressa, quatro garrafas de vinho português quando o governador da província vai jantar ao seu restaurante.

Aumentaram o salário da sua cozinheira cambojana substancialmente quando assumiram o restaurante e deram-lhe mais responsabilidades e autonomia. Contrataram uma ajudante que não sabe ler nem escrever e que, assim, obteve um emprego. Experimentaram. Podiam ter mais mesas no seu espaço, mas não querem. Assim funciona. Bem. Querem fazer bem, não só fazer dinheiro. Não se orientam preferencialmente para os estrangeiros viajantes e para os ocidentais expatriados que por ali vivem. São só um restaurante português no Camboja, para quem queira vir.

O Miguel e a Carolina, mesmo que não o saibam, são uma inspiração. A sua abertura, gentileza, transparência, capacidade de integração e de aprendizagem com o espaço novo em que vivem, que pude testemunhar em dois dias, é o melhor do que somos. São, eles, por ali, os nossos embaixadores.

Quando o habitual em Portugal é queixarmo-nos, adaptarmo-nos, construir uma infelicidade rotineira e gerível, eles fizeram o contrário. Como tantos antes e agora, é certo, e também entre nós.

Para um país de espanhóis tristes e nostálgicos, como nós somos, é sempre bom revermo-nos em quem muda e supera, com otimismo e alegria. Cinco séculos de marinheiros e degredados a provocar em casa um exército de quase viúvas e filhos pequenos, e mais um século de emigração para a reconstrução da Europa, deixam de facto as suas marcas. O peso da história funciona sempre para os dois lados, mas o melhor é escolher o lado da luz e não o da escuridão.


Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

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