Migrações e temores europeus

A crise afegã veio colocar de novo o problema da imigração no centro das discussões europeias. No essencial, trata-se do receio que cheguem à Europa milhares e milhares de pessoas vindas do Afeganistão, empurradas para a migração por uma combinação de razões: a fuga ao regime talibã, a miséria económica, a ausência de perspetivas futuras e a atração que as sociedades mais ricas exercem sobre quem vive um quotidiano de desespero e de luta constante pela sobrevivência. Perante esse receio, os ministros europeus identificaram, como plano de ação, o menor denominador comum: tentar conter as pessoas no interior das fronteiras do Afeganistão ou nos países limítrofes. Para isso, contam com a colaboração do novo poder afegão, a vontade interesseira dos líderes paquistaneses e iranianos e ainda com a experiência e o bom nome das agências humanitárias das Nações Unidas e do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.

O presidente do Comité Internacional da Cruz Vermelha, o suíço Peter Maurer, esteve esta semana no Afeganistão, durante três dias, para discussões com a liderança talibã e visitas ao terreno. Também o secretário-geral adjunto da ONU para as questões humanitárias, o britânico Martin Griffiths, visitou Cabul, para se encontrar com o mullah Abdul Ghani Baradar, agora vice-primeiro-ministro, e obter um mínimo de garantias necessárias para o desenrolar aceitável da ajuda humanitária. Estas rondas de contactos correram bem e a UE vai provavelmente ser a principal fonte de recursos para que estas organizações possam fazer o que delas se espera.

No entanto, muitos afegãos acabarão por procurar refúgio fora das fronteiras nacionais, sobretudo no Paquistão. Não se sabe bem quantos refugiados afegãos viviam já no Paquistão. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) regista oficialmente 1,4 milhões de pessoas. Mas existe uma multidão fora dos registos. Estima-se que desde 15 de agosto, dia da queda de Cabul, estejam a atravessar a fronteira em direção ao Paquistão cerca de 10 mil pessoas por dia. Esse fluxo irá possivelmente aumentar, por causa da situação política, económica e social agora existente no Afeganistão. Uma parte significativa destes novos refugiados procurará chegar à Europa.

O Paquistão não tem as condições económicas e institucionais necessárias para albergar uma nova vaga de refugiados. Precisa de apoio internacional. A classe dirigente paquistanesa sabe muito. Vai pedir auxílio material e favores políticos aos europeus. Não é que precise de muito apoio político, pois já conta com o respaldo total dos chineses. Mesmo assim, fará saber aos europeus que a sua disponibilidade em termos de acolhimento humanitário será mais forte se houver, como contrapartida, um esfriamento - mesmo que discreto - das relações entre a UE e a Índia. Neste jogo geoestratégico, Nova Deli tem muitas hipóteses de ficar a perder.

No caso do Irão, a estória é outra. As relações entre a Europa e o Irão são afetadas por dois tipos de condicionantes: a falta de acordo sobre os limites do programa nuclear iraniano e as sanções e restrições impostas pelos americanos, que os europeus não são capazes de pôr em causa. Apesar de tudo isto, defendo que a Europa não pode excluir o Irão do processo humanitário. Para mais, se se tiver em conta que a maioria dos itinerários migratórios passam por esse país. Que pedirá Teerão em troca de uma colaboração que evite o trânsito de massas humanas? Esta questão não pode ser ignorada.

Os diferentes Estados europeus estão dispostos a acolher quem trabalhou diretamente com as suas forças militares. Mas não têm a intenção de ir mais além. Aos habituais Viktor Orbán e companhia, junta-se agora uma nova vedeta, o chanceler austríaco Sebastian Kurz. E as redes sociais já estão cheias de teorias catastróficas sobre o impacto que adviria de um aumento da proporção de muçulmanos em terras europeias. Sem esquecer, dizem, os possíveis perigos de atentados terroristas. A realidade é que aqui, na UE, como noutras partes do mundo, as questões de identidade cultural estão cada vez mais no centro da agenda política.

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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