Metamorfoses

A cinco meses das legislativas alemãs, a CDU está em queda nas sondagens e os Verdes com mais hipóteses de disputar a chancelaria. Há razões para isto. E bem-vindas.

Tem sido um início de ano terrível para Angela Merkel. As incongruências na vacinação e o duplo falhanço na passagem de testemunho na CDU (Annegret Kramp-Karrembauer e Armin Laschet) parecem ter mergulhado o partido numa descapitalização política repentina e não prevista. Laschet, que acumulou um arranque sem chama com a tímida gestão dos casos de enriquecimento ilícito entre deputados, acabou atropelado no Baden-Wurttemberg e na Renânia-Palatinado, estados ricos e industrializados e fora do topo da recente vaga de contágios da covid por 100 mil habitantes. Num, a CDU foi a única penalizada numa coligação liderada pelos Verdes, no outro nem se intrometeu no "semáforo" que aí impera (SPD, Verdes e FDP). A cinco meses das legislativas, há ideias relevantes a retirar.

A primeira é que ilações nacionais após eleições regionais nem sempre apresentam um fio condutor. As características socioeconómicas e históricas dos estados federados são suficientemente diversas para acautelar essas avaliações. Já houve anos em que a CDU foi penalizada regionalmente e não foi por isso que Merkel perdeu as legislativas. O dado novo é que a chanceler não é mais candidata e isso abre uma ideia de fim de ciclo, apesar da boa gestão da pandemia e dos debates europeus ao longo de 2020. A partir do momento em que os atores mudam e as coisas no terreno descarrilam, Merkel parece ultrapassada pela fadiga do poder. Aliás, esta erosão repentina coincide com a mesma perda de autoridade de Ursula von der Leyen na Comissão Europeia.

O que aqueles dois resultados indicam é uma tolerância zero sobre Laschet, o que pode inviabilizar uma candidatura a chanceler se isso preanunciar o desastre.

Uma segunda ideia resulta da consolidação dos Verdes na liderança de um estado que alberga uma parte relevante da indústria automóvel, onde o voto é mais pragmático do que noutros, e no qual as metamorfoses do partido têm ajudado a estabilizar uma base eleitoral entre centro-esquerda e centro-direita. Daqui talvez se possa extrapolar para a dinâmica nacional, pois a verdade é que as sondagens acomodam há três, quatro anos, os Verdes como segundo partido nacional, nalguns momentos até como primeiro, subindo sempre que CDU e SPD descem. O facto de não estar entre as vítimas da fadiga do poder - CDU e SPD estão coligados há 12 dos últimos 16 anos -, de Merkel poder hoje não ser mais encarada como a perspicaz gestora de crises ou de acertar nos sucessores para tamanha missão, podem ser razões para essa constante avaliação positiva.

Contudo, há um outro argumento com peso na equação e que resulta das transformações assumidas pelos Verdes na última década, sobretudo desde que as imoralidades da grande crise financeira, a evidência das alterações climáticas, a fratura das vagas migratórias e a duração da atual pandemia foram validando o seu ideário: de proibitivo a negociado, de dogmático anticapitalista para uma "economia de mercado socioecológica", de antieuropeu ao compromisso inegociável pela integração europeia aprofundada. Por outras palavras, maior ambição na descarbonização da economia, impostos altos às tecnológicas e multinacionais peritas em "planeamento fiscal", cosmopolitismo social e abertura à imigração, prioridade à inovação, investigação, qualificações, mobilidade e habitação, a defesa de mais áreas comunitárias votadas por maioria e listas transnacionais para o Parlamento Europeu.

A contemporaneidade do partido tornou-o atrativo entre as novas gerações e dá-lhe condições para disputar a chancelaria. Convém perceber a hipótese de mudança em Berlim para acomodarmos, noutras latitudes, os seus efeitos no debate partidário europeu. Uma parte relevante da vitalidade do centro-esquerda continental virá daqui. E ainda bem.

Investigador

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